O vereador Jessé Sangalli: uma análise

Hoje cedo me pediram opinião sobre o vereador Jessé “da Ipiranga até Viamão”, como dizia seu nome de urna. Na hora, não formulei nada. Pensando melhor (depois de um café), posso tecer pelo menos um pitaco, um insight sobre o assunto.

Quando Jessé foi eleito, a impressão geral era de um vereador de mandato único: sem experiência, sem um programa claro, e com apelo baseado em um único projeto, ainda por cima irrealista. Uma espécie de curiosidade exótica na lista de eleitos. Ninguém dava nada.

A questão é que o parlamentar vai, aos poucos, achando um nicho e firmando uma personalidade pública consistente.

 

 

No campo “teórico”, das ideias, ele faz um discurso no mesmo viés de figuras como Rodrigo Constantino, Marcel Van Hatten, e toda essa “direita” que ganha aplausos dando voz à indignação do cidadão de classe média com o populismo, o assistencialismo e a burocracia. Bate na esquerda, repete bordões anti-comunistas.

No campo prático, apresenta projetos que obviamente demandariam uma mudança radical de legislação e de mentalidades mas que, pensando livremente, são soluções simples e definitivas. No programa Viamão Alerta Debates da última segunda-feira ele propôs contrapor os problemas do transporte público com o fortalecimento dos aplicativos tipo Uber e 99Pop, e a liberação para que vans possam atuar nos bairros.

Sendo um vereador novo, não associado com nenhuma das “panelas” e famílias tradicionais da política, consegue ainda passar a imagem de “outsider”, que está na moda. Levará um tempo para que essa marca se desgaste, mesmo ele sendo parte da base do governo.

Jessé achou um público definido, que espera um tipo de discurso, e está sabendo surfar nas expectativas e medos desse público.
Ao mesmo tempo, tem feito um bom trabalho de base, capturando uma fatia de eleitorado que não se sensibiliza com o discurso teórico e espera algum tipo de socorro, com projetos como o “Concreta Beco”.

Se o discurso, a prática ou as ideias do vereador Jessé Sangalli são boas ou ruins, isso depende da visão de cada leitor.

O que estou dizendo é que ele achou uma fórmula de atuação política e eu já não apostaria as minhas fichas na teoria do “vereador de um mandato só”. Mesmo que ele tenha que ficar ouvindo piadas e dando explicações, por muitos anos ainda, sobre a tal vinda da Ipiranga até Viamão.

Nunca, em décadas, um grupo teve tanta força e unidade em Viamão

Viamão é uma cidade na qual eleições municipais são, tradicionalmente, decididas por detalhes: não havendo segundo turno por aqui, os prefeitos são normalmente eleitos com pouco mais de um terço dos votos. Mas, em 2016, tivemos um raro caso de vitória “de lavada”, com mais de 50% do votos, atribuída ao atual prefeito André Pacheco.

A situação mudou pouco desde então: o tucanato viamonense, concentrado ao redor do governo municipal e, principalmente, do seu lider de facto, o ex-prefeito Valdir Bonatto, desfruta de um poder político absolutamente inédito nas últimas duas decadas na cidade.

Se observarmos, durante os governos do PT, os partidos de oposição eram fortes e realmente dividiam as votações locais quando chegava a hora de apoiar candidaturas em eleições gerais. Hoje, Viamão é um grande campo político Bonattista, sem grandes obstáculos. São partidos e mais partidos, uma maioria absoluta na Câmara, cabos eleitorais por toda parte e uma administração municipal que, mal ou bem, ainda tem força e poder de barganha junto às comunidades.

Jamais, neste século, um grupo teve tamanho domínio sobre o Executivo, o Legislativo, e a vida política de Viamão como um todo, com tantos links nas vilas e recursos midiáticos, econômicos e humanos.

 

 

Isso quer dizer o seguinte: André, Bonatto e seus aliados, mesmo já acometidos por um certo desgaste no governo, têm nas mãos a melhor chance das últimas décadas de somar, na cidade, a força necessária para o lançamento de pelo menos um deputado federal e um estadual, saídos diretamente das trincheiras da política local em 2018.

O grande obstáculo possível seria a divisão deste bloco em várias candidaturas (por causa dos sempre presentes egos conflitantes). Mas, dado o grau de centralização dessa turma (toda grande decisão parece já sair pronta da Estrada da Branquinha), é provável que nem isso seja um problema.

Se a situação é bom ou ruim, se os nomes a serem apoiados por esta gigantesca máquina são bons ou maus, cabe a cada um julgar conforme seus próprios critérios.

A nova lei da tarifa escolar nos ônibus de Viamão: onde está o movimento estudantil?

A sistemática da tarifa estudantil mudou. Se antes era universal o acesso à meia-passagem, agora haverá a isenção total, mas só para aqueles que comprovarem carência. O texto da lei atual está no site da Prefeitura. Mas eu quero analisar COMO isso foi acontecer.

A nova lei foi “vendida” com o argumento de que baixaria o valor da tarifa para os passageiros pagantes (coisa que duvido muito). Só que o financiamento da isenção aos alunos, na verdade, não deveria sair do bolso dos outros usuários, e sim do Fundeb. Afinal, o acesso à escola é um direito garantido pela legislação federal. O transporte escolar deveria ser universal mas, sendo muito caro para a Prefeitura manter um monte de vans dedicadas a isso, optou-se por dar o passe de ônibus gratuito.

 

 

O mais interessante é que ninguém está lembrando o fato de a tarifa estudantil não ter, em sua origem, caráter de “justiça social”. Ela nasceu como uma conquista do movimento estudantil, de todos os estudantes, como categoria.

O que acontece é que a luta pela meia-passagem acabou relegada a um passado tão remoto que a geração atual de estudantes não tem nem acesso à memória dele – basicamente porque as instituições envolvidas estão de bola murcha.

A UNE, tomada há décadas pela juventude do PCdoB, não tem mais moral alguma. Ubes, a mesma coisa. A União dos Estudantes de Viamão (tradicionalmente aparelhada pelo PDT) não tem nem uma sede mais (só “existe” no Facebook). Estas entidades se esvaziaram como movimento e conseguiram manter-se até recentemente monopolizando a lucrativa emissão de carteirinhas estudantis – agora, nem isso conseguem. Por fim, os grêmios estudantis, que antigamente eram uma coisa importante e serviam como celeiro de novas lideranças políticas da cidade, estão fechados ou quietos.

O fato de que esta nova legislação municipal ter sido pensada, aprovada e levada a cabo de forma tão pacífica (só a diminuta oposição na Câmara esperneou) é o sintoma cabal de que o movimento estudantil, como instituição e da forma como o conhecemos, já era.

 

UM ADENDO:

Ao lado da nova legislação, é bem provável que a Prefeitura acabe tentando realocar alunos das escolas infantis para unidades mais próximas de suas casas. Por algum motivo misterioso, Viamão é uma cidade na qual muitas mães matriculam seus filhos em escolas distantes de onde moram, havendo outra mais perto.

O que eu vejo nos planos de Chiden e Geraldinho

Antes de mais nada, que fique claro: eu não perguntei nada sobre isso a nenhum deles. Estou só ponderando em cima dos fatos.

Os dois têm em comum três características: ambos já foram políticos com mandatos importantes (deputado e prefeito); ambos sofreram desgastes que os levam a fazer cada vez menos votos a cada eleição; e ambos parecem estar apostando em “caronas” para reverter este quadro.

O ex-deputado Geraldinho Filho, depois de sagrar-se primeiro e até hoje único político viamonense a tomar posse no Congresso Nacional, aninhou-se no governo Bonatto/André. Está em visível pré-campanha. Contará com o apoio da “máquina”, CCs e aliados do governo municipal – é sua grande chance de reverter a perda de força eleitoral dos últimos anos. E talvez seja sua última grande chance em uma eleição geral. Se não der certo, ele será praticamente obrigado a descer um degrau e voltar às disputas em nível municipal.

Já o ex-prefeito Jorge Chiden assume a presidência do REDE em Viamão. O partido vive hoje uma virtual inexistência, com poucos filiados e nenhum nome eleitoralmente forte. Mas, se Marina Silva for eleita para a Presidência da República, ou simplesmente der mais visibilidade ao partido, Chiden passará a ter uma chance de voltar ao jogo. Ele precisa chegar a 2020 politicamente vivo – algo só possível se o REDE vencer a cláusula de barreira – para poder ter algum papel nas eleições municipais.

PDT de Viamão – Fundação e Governo (Jorge Chiden)

Este livro, escrito por um político, bem poderia ser um panfletão. Mas não é. Ele acaba sendo uma belíssima peça de historiografia da cidade de Viamão, no Rio Grande do Sul. Saiu em 2011, e o autor é o ex-prefeito Jorge Chiden.

A frase de apoio ao título é a descrição ideal do que vem a seguir: “A história que merecia um livro”. Porque essa história, da forma como ela foi escrita, merecia mesmo um livro. E que livro!

Chiden não é jornalista, escritor profissional nem nada do tipo. O livro tem alguns erros de português, algumas redundâncias, e há alguns equívocos de diagramação: embora o texto diga que “ao lado vemos o balanço de tal coisa”, as versões digitalizadas dos materiais e reportagens de jornal são pequena demais para que possamos ler.

Mas, se o livro não é tecnicamente perfeito, por outro lado é uma leitura muito empolgante. Especialmente para quem mora em Viamão e conhece os personagens citados.

Sério: é um livro muito bem escrito. O conteúdo tem uma fluidez, ele carrega o leitor através das páginas. É o tipo de livro que a gente começa a ler, e não quer parar mais. Se o sujeito pega para ler tarde da noite, o sono desaparece e corre-se o risco de passar a noite em claro, para ler o livro até o final.

A capacidade “viciante” deste livro só resvala um pouco nas páginas que o Jorge dedicou à lista de obras dos governos, que é muito extensa, e acaba ficando enfadonha.

No geral, é uma baita de uma leitura. Duas coisas, principalmente, me chamaram a atenção.

A primeira, são os depoimentos e causos das campanhas, que nos levam a uma época mais inocente da política, na qual a militância dos partidos saía pela madrugada pintando muro, espalhando panfleto, passava dias acampada em vila para estruturar partido. Acho que já havia a militância paga, os famosos “agitadores de bandeiras”, que hoje vemos em toda parte, mas o papel principal era do pessoal engajado.

As histórias contadas nos dão a nítida impressão de que aquela gente viveu uma época e uma história, que mereciam mesmo ser vividas. Dá inveja até, para quem olha a partir destes nossos apáticos e desiludidos anos dois-mil-e-tantos. Os governos do PDT erraram, claro, deram trombadas, mas fizeram tudo o que fizeram tendo propósitos. Não é o tipo de coisa que se vê hoje, com um sistema partidário no qual ninguém é de esqueda ou direita, e todo mundo diz que vai “fazer mais”. Não! O governo Tapir Rocha declarava-se socialista! Os caras acreditavam mesmo nas bandeiras que empunhavam! uma coisa meio ingênua, até, se olharmos agora.

Os caras abriram um cinema popular, para conscientizar as massas, e passavam até filmes do Eisenstein para o povo!

A segunda coisa notável no livro, são as histórias dos governos do PDT. Dá para notar que as obras e realizações são quase todas de pequeno porte, mas espalhadas, e inúmeras. Eram governos que não tinham um tostão, mas tentavam fazer uma revolução na cidade. Muitas soluções eram legitimamente caseiras, mas resolviam. Havia um certo clima de “vamos fazer tudo diferente” no ar. Um clima até, de certa improvisação, de tentativa e erro, de vontade de fazer mesmo.

Um bom exemplo é o ancoradouro de Itapuã. Olhando para ele, nota-se que não é nenhuma estrutura faraônica, é uma obra bastante modesta, para uma prefeitura: clubes particulares possuem estrutura do mesmo tamanho. E no entanto foi uma grande realização dos governos do PDT. Algo relativamente simples, mas que resolveu, e continua resolvendo mesmo passados quase 30 anos.

Os depoimentos das pessoas que viveram aquelas coisas são um caso á parte. A gente hoje vê esses personagens como tiozões sentados em algum gabinete ou quietos, cuidando das vidas deles, e aí, no livro, a gente vê esse pessoal na juventude. E vou te dizer: Viamão tem mais heróis do que eu imaginava. Eu já sabia de muitas das coisas relatadas no livro, mas nunca as tinha visualizado como estou fazendo agora, durante a leitura.

Um bom exemplo é o Pedrão Negeliskii.  Eu o conhecia apenas como o diretor do Jornal Opinião, um semanário que é muito bom no quesito distribuição, mas jornalisticamente deixa a desejar. Enfim. No livro, ficamos sabendo que ele já foi uma espécie de herói esportivo da cidade, campeão de um monte de categorias de corrida, recordista estadual, uma lenda viva. Que fez muito pela cidade como Secretário de Educação. Coisas que a gente não imagina vendo o Pedrão hoje em dia.

Outros bons exemplos são o Bira Camargo, Leonel Rocha, o Natalício do gabinete do Romer, e o próprio Romer. Essas pessoas fizeram um monte de coisas interessantes, enfrentaram uma época dificílima.

O livro, claro, dá certa derrapada no “culto à personalidade”, pois enfoca de maneira muito principal (especialmente nas partes finais, na coleção de imagens e nas listagens de realizações do governo), na gestão do autor do livro, Jorge Chiden, parecendo relegar a um papel algo secundário o governo Tapir Rocha. Quando se sabe que, de fato, o grande nome do PDT de Viamão sempre foi Tapir.

Há um lado importante nessa coisa de dar destaque às façanhas do Jorge Chiden: acaba sendo um resgate histórico importante, porque enquanto o Tapir virou nome de estrada, busto na praça, nome do plenário da Câmara, e herói lendário de Viamão, seu sucessor sofreu uma espécie de esquecimento do imaginário coletivo. Algo inexplicável, quando a gente olha o tanto de coisas que ele fez no governo.

Concluindo, este é um livro de pequenas e poucas falhas, e enormes e muitíssimos acertos. Recomendo, e recomendo mesmo. Baita livro. Baita leitura. Baita história!03