Solo (Juremir Machado da Silva)

Este livro do Juremir Machado da Silva é narrado a partir do ponto de vista de um personagem perfeitamente desprezível, mas interessante. São mais de 360 páginas que fascinam enquanto falam sobre o nada.

O personagem e tema principal do livro é um sujeito que tem dinheiro. Não é rico nem poderoso, mas tem renda suficiente para viver sem trabalhar. Ele assiste a muita TV, e sofreu uma grande desilusão amorosa, com a partida de uma tal Alice, sua namorada ou algo assim. Mais adiante, fica a dúvida se ela era real, imaginária, ou real mas lembrada em uma visão idealizada.

Bom. O fato é que este desocupado não tem sentido na vida. Vê muita TV e tem um fascínio pelo personagem Louro José. Aquele papagaio da Ana Maria Braga. O interessante é que ao longo do livro vemos as contribuições filosóficas tiradas de tudo que é programa televisivo, e o livro em si parece em boa parte uma tiração de sarro com a TV.

Mais adiante na trama, o foco sai da TV e o protagonista começa a procurar suas respostas no misticismo. Procura o batuque e depois viaja, até mesmo para o Peru. O final é bastante confuso. Não se sabe mais o que é realidade e o que é ilusão, e cada leitor que conheço interpreta a coisa de uma forma diferente.

A narrativa do livro todo é em linguagem coloquial, cheia de palavrões. O personagem narra suas fantasias, taras, indecisões, suas idas ao banheiro e sua masturbação. A linguagem e a própria construção do personagem são meio decadentes, pessimistas, desiludidas.

Juremir Machado da Silva deve ter lido e traduzido livros demais de Michel Houellebecq. A falta de propósito da caminhada e da vida do “herói” de “Solo” lembra um pouco “Extensão do Domínio da Luta”, até nas personalidades relutantes e nas sexualidades sem empolgação nem glamour, algo meio “necessidade fisiológica”, dos protagonistas dos dois livros.

Solo é um livro longo. Em alguns pontos, chega a ser cansativo. Há alguma repetição. Mas a vida real é repetitiva e este é um livro realista, no sentido de que retrata um personagem comum dos dias de hoje. Apesar de absurdo, ele é plausível. Trata-se de uma obra bem escrita, que não ganhou metade da fama que deveria ter ganho, porque foi com certeza o livro de ficção mais empolgante que Juremir já escreveu. Em suas páginas, nos ensina basicamente nada, começa em coisa nenhuma e não vai a parte alguma. Mas é viciante. Quem começa a ler não consegue parar até terminar.

E, vira e mexe, bate aquela vontade de reler.