Lula certamente rendeu-se de caso pensado

Lula poderia ter fugido do Brasil. Nem seria difícil. Ele esteve em pré-campanha aqui pelo Rio Grande do Sul, passou por São Borja, andou pela fronteira, poderia muito bem ter embarcado em um automóvel e ido para o Uruguai, a Argentina, o Paraguai. De lá, para Cuba, de onde jamais seria extraditado.

O ex-presidente poderia, também, ter optado pelo suicídio. Repetindo o gesto extremado de Getúlio vargas, ele bem poderia salvar sua biografia para a posteridade. Criaria, ainda, um fato novo capaz de dar ao PT uma chance de voltar ao poder, estancar a sangria, reverter tudo. Qualquer um que conheça a história de 1954 sabe do que estou falando: indignação geral, povo nas ruas, e o esquecimento imediato de todas as baixezas e vilanias atribuídas ao suicida, agora transformado em mártir.

Entre fugir ou morrer, Lula escolheu simplesmente entregar-se. Por quê?

 

 

Das duas, uma: ou ele aposta em um levante, ou sabe de antemão que sua prisão será cênica.

Pode ser que o líder petista aposte em uma onda de indignação capaz de tirar de casa os militantes e apoiadores que, embora nutrindo ainda simpatias e votando no PT, estavam desmobilizados. Institucionalmente, esta mobilização teria – como tem – o reforço de entidades como a ONU e de governos da América Latina, da Europa, etc.

É possível, ainda, que haja um esquema como aquele preconizado pelas imortais palavras de Romero Jucá, “um pacto nacional, com o Supremo, com tudo” para “estancar a sangria”. Afinal, o próprio Jucá já falava, em suas conversas grampeadas, da necessidade de achar um “boi de piranha”. Neste caso, Lula iria preso como vão os bandidos menores de 18 anos: sabendo que vai ser solto.

Resumindo: posso estar redondamente enganado, mas só consigo entender essa rendição do Lula como uma jogada alicerçada em um cálculo muito otimista. Ou um blefe.

E se o Lula for preso?

Hoje será avaliado o pedido de habeas corpus feito pela defesa do ex-presidente Lula. Caso seja rejeitado por unanimidade, o líder petista poderá ir para o xilindró já no começo da semana que vem, dependendo da decisão do TRF4. Grandes jornais dão notícia de que a Polícia Federal já está de prontidão.

Enquanto espera ser julgado, Lula continua em pré-campanha. No discurso, o PT e seus movimentos sociais aliados acreditam em Luís Inácio e lutam por ele. Na prática, não vemos a prometida “revolução lulista” tomar as ruas – nem a militância petista parece disposta a ir para a rua apoiá-lo em massa.

Se for preso, Lula é 100% carta fora do baralho – mais do que atualmente já o é.

A presidência passaria a ser disputada, na prática, por Bolsonaro, Marina, Ciro Gomes, e um nome indicado por Temer (provavelmente Henrique Meireles).

O PT – com condenação ou não – terá que lidar com o fato de que cometeu exatamente o mesmo erro que, décadas atrás, seus militantes atribuíam ao PDT: o partido acomodou-se em ganhar eleições com a popularidade de um líder carismático, apostou todas as fichas nele e, sem ele, torna-se um partido fraco. Quem poderia substituir Lula? O Haddad? Nacionalmente, é um desconhecido. Suplicy? Maria do Rosário? Quem?

O PT fez de Lula seu próprio Brizola. A diferença é que Lula, ainda muito vivo, moribundeia politicamente; já o caudilho pedetista, pelo contrário, continua politicamente vivo mesmo tendo falecido há anos.

O outrora invencível Partido dos Trabalhadores, destituído de apoio e militância dos próprios trabalhadores (que esperavam coisa melhor depois de décadas de discurso virtuoso) e já sem o antigo poder hipnótico sobre a juventude (que migra em massa para o PSOL), uma vez perdendo seu grande puxa-votos nacional, torna-se um partido mediano. Se tiver um mínimo de decência e realismo, deverá abrir mão e apoiar algum nome de esquerda com chances. Mas eu não apostaria nisso: o PT é conhecido pela obsessão em encabeçar chapas, mesmo que suicidas.