Por quê praias, parques e praças não são “mera perfumaria” em uma cidade

No “aquecimento” do evento do AVANTE ao qual fui semana passada, pude bater um papo rápido com a vice-prefeita de Canoas, Gisele Uequed. Ela me dizia que a cidade (dela) anda investindo em espaços como praças, parques, áreas verdes, de lazer. Não fui até a cidade conferir, ainda, o quanto disso é real. Mas essa é uma conversa sempre muito importante para mim.

Talvez por ter crescido a poucos metros do Parque da Redenção, eu dou enorme importância a áreas deste tipo. Quando conheci Canoas há alguns anos, tive uma impressão negativa justamente porque achei a cidade “cinza” demais.

Há quem pense que um bom condomínio, com playground e piscina, pode substituir um parque ou uma boa orla de rio. Playgrounds são bolhas: lá a gente só encontra quem já conhece, moradores do mesmo residencial, pertencentes à nossa mesma faixa social. Neles não há artistas de rua e nem a efervescência do diferente. É como o mundo real, mas feito de plástico.

 

 

Os parques e praças são o último espaço coletivo de convivência na qual a cidade ainda “acontece” de forma presencial na vida das pessoas. São a ágora que restou. Não sendo espaços privados, ganham um caráter altamente democrático e servem de palco para a expressão das muitas subculturas e tribos urbanas.

Pode-se ir a esses lugares com muito dinheiro no bolso, ou sem um tostão: este tipo de espaço é a única opção gratuita e universalmente acessível de lazer existente.

Na minha opinião, quem não enxerga isso nem deveria concorrer a prefeito de cidade alguma.

O que eu vejo nos planos de Chiden e Geraldinho

Antes de mais nada, que fique claro: eu não perguntei nada sobre isso a nenhum deles. Estou só ponderando em cima dos fatos.

Os dois têm em comum três características: ambos já foram políticos com mandatos importantes (deputado e prefeito); ambos sofreram desgastes que os levam a fazer cada vez menos votos a cada eleição; e ambos parecem estar apostando em “caronas” para reverter este quadro.

O ex-deputado Geraldinho Filho, depois de sagrar-se primeiro e até hoje único político viamonense a tomar posse no Congresso Nacional, aninhou-se no governo Bonatto/André. Está em visível pré-campanha. Contará com o apoio da “máquina”, CCs e aliados do governo municipal – é sua grande chance de reverter a perda de força eleitoral dos últimos anos. E talvez seja sua última grande chance em uma eleição geral. Se não der certo, ele será praticamente obrigado a descer um degrau e voltar às disputas em nível municipal.

Já o ex-prefeito Jorge Chiden assume a presidência do REDE em Viamão. O partido vive hoje uma virtual inexistência, com poucos filiados e nenhum nome eleitoralmente forte. Mas, se Marina Silva for eleita para a Presidência da República, ou simplesmente der mais visibilidade ao partido, Chiden passará a ter uma chance de voltar ao jogo. Ele precisa chegar a 2020 politicamente vivo – algo só possível se o REDE vencer a cláusula de barreira – para poder ter algum papel nas eleições municipais.

PDT de Viamão – Fundação e Governo (Jorge Chiden)

Este livro, escrito por um político, bem poderia ser um panfletão. Mas não é. Ele acaba sendo uma belíssima peça de historiografia da cidade de Viamão, no Rio Grande do Sul. Saiu em 2011, e o autor é o ex-prefeito Jorge Chiden.

A frase de apoio ao título é a descrição ideal do que vem a seguir: “A história que merecia um livro”. Porque essa história, da forma como ela foi escrita, merecia mesmo um livro. E que livro!

Chiden não é jornalista, escritor profissional nem nada do tipo. O livro tem alguns erros de português, algumas redundâncias, e há alguns equívocos de diagramação: embora o texto diga que “ao lado vemos o balanço de tal coisa”, as versões digitalizadas dos materiais e reportagens de jornal são pequena demais para que possamos ler.

Mas, se o livro não é tecnicamente perfeito, por outro lado é uma leitura muito empolgante. Especialmente para quem mora em Viamão e conhece os personagens citados.

Sério: é um livro muito bem escrito. O conteúdo tem uma fluidez, ele carrega o leitor através das páginas. É o tipo de livro que a gente começa a ler, e não quer parar mais. Se o sujeito pega para ler tarde da noite, o sono desaparece e corre-se o risco de passar a noite em claro, para ler o livro até o final.

A capacidade “viciante” deste livro só resvala um pouco nas páginas que o Jorge dedicou à lista de obras dos governos, que é muito extensa, e acaba ficando enfadonha.

No geral, é uma baita de uma leitura. Duas coisas, principalmente, me chamaram a atenção.

A primeira, são os depoimentos e causos das campanhas, que nos levam a uma época mais inocente da política, na qual a militância dos partidos saía pela madrugada pintando muro, espalhando panfleto, passava dias acampada em vila para estruturar partido. Acho que já havia a militância paga, os famosos “agitadores de bandeiras”, que hoje vemos em toda parte, mas o papel principal era do pessoal engajado.

As histórias contadas nos dão a nítida impressão de que aquela gente viveu uma época e uma história, que mereciam mesmo ser vividas. Dá inveja até, para quem olha a partir destes nossos apáticos e desiludidos anos dois-mil-e-tantos. Os governos do PDT erraram, claro, deram trombadas, mas fizeram tudo o que fizeram tendo propósitos. Não é o tipo de coisa que se vê hoje, com um sistema partidário no qual ninguém é de esqueda ou direita, e todo mundo diz que vai “fazer mais”. Não! O governo Tapir Rocha declarava-se socialista! Os caras acreditavam mesmo nas bandeiras que empunhavam! uma coisa meio ingênua, até, se olharmos agora.

Os caras abriram um cinema popular, para conscientizar as massas, e passavam até filmes do Eisenstein para o povo!

A segunda coisa notável no livro, são as histórias dos governos do PDT. Dá para notar que as obras e realizações são quase todas de pequeno porte, mas espalhadas, e inúmeras. Eram governos que não tinham um tostão, mas tentavam fazer uma revolução na cidade. Muitas soluções eram legitimamente caseiras, mas resolviam. Havia um certo clima de “vamos fazer tudo diferente” no ar. Um clima até, de certa improvisação, de tentativa e erro, de vontade de fazer mesmo.

Um bom exemplo é o ancoradouro de Itapuã. Olhando para ele, nota-se que não é nenhuma estrutura faraônica, é uma obra bastante modesta, para uma prefeitura: clubes particulares possuem estrutura do mesmo tamanho. E no entanto foi uma grande realização dos governos do PDT. Algo relativamente simples, mas que resolveu, e continua resolvendo mesmo passados quase 30 anos.

Os depoimentos das pessoas que viveram aquelas coisas são um caso á parte. A gente hoje vê esses personagens como tiozões sentados em algum gabinete ou quietos, cuidando das vidas deles, e aí, no livro, a gente vê esse pessoal na juventude. E vou te dizer: Viamão tem mais heróis do que eu imaginava. Eu já sabia de muitas das coisas relatadas no livro, mas nunca as tinha visualizado como estou fazendo agora, durante a leitura.

Um bom exemplo é o Pedrão Negeliskii.  Eu o conhecia apenas como o diretor do Jornal Opinião, um semanário que é muito bom no quesito distribuição, mas jornalisticamente deixa a desejar. Enfim. No livro, ficamos sabendo que ele já foi uma espécie de herói esportivo da cidade, campeão de um monte de categorias de corrida, recordista estadual, uma lenda viva. Que fez muito pela cidade como Secretário de Educação. Coisas que a gente não imagina vendo o Pedrão hoje em dia.

Outros bons exemplos são o Bira Camargo, Leonel Rocha, o Natalício do gabinete do Romer, e o próprio Romer. Essas pessoas fizeram um monte de coisas interessantes, enfrentaram uma época dificílima.

O livro, claro, dá certa derrapada no “culto à personalidade”, pois enfoca de maneira muito principal (especialmente nas partes finais, na coleção de imagens e nas listagens de realizações do governo), na gestão do autor do livro, Jorge Chiden, parecendo relegar a um papel algo secundário o governo Tapir Rocha. Quando se sabe que, de fato, o grande nome do PDT de Viamão sempre foi Tapir.

Há um lado importante nessa coisa de dar destaque às façanhas do Jorge Chiden: acaba sendo um resgate histórico importante, porque enquanto o Tapir virou nome de estrada, busto na praça, nome do plenário da Câmara, e herói lendário de Viamão, seu sucessor sofreu uma espécie de esquecimento do imaginário coletivo. Algo inexplicável, quando a gente olha o tanto de coisas que ele fez no governo.

Concluindo, este é um livro de pequenas e poucas falhas, e enormes e muitíssimos acertos. Recomendo, e recomendo mesmo. Baita livro. Baita leitura. Baita história!03