Tipinhos Típicos: O Intelectual DesIntelectualizado

Talvez você conheça o Geraldo. Ele é um cara legal. Mais ou menos. Geraldo é um cara peculiar. Sim, eu tenho a impressão de que você provavelmente também o conhece.

Ele foi um adolescente inteligente. Lia muito jornal, rodeava-se de livros. Compreendia a realidade brasileira e mundial com certa clareza e discutia política, história e sociedade melhor que os adultos. Por isso, acabava sendo visto como referência por muitos de seus colegas. Um futuro estadista, talvez.

Só que o tempo passou, e Geraldo foi adiando sua participação ativa na política. O tempo passou, e ele manteve-se um guerreiro a lutar à margem da guerra. O tempo passou, e muita coisa passou.

Tanto o tempo passou que agora, aos trinta e tantos anos, Geraldo é esse personagem peculiar, cuja retórica ainda impressiona aos ouvintes mais desavisados. É que ele constrói, em torno do noticiário atual, análises embasadas nas regras do jogo de vinte anos atrás.

De toda aquela leitura da juventude, já esqueceu boa parte. Daquilo que lembra, excluiu de seu repertório tudo o que, na experiência prática da vida, provou-se mera “viagem” teórica. Resumindo: ele perdeu muita coisa e jogou fora muito lixo. Mas não comprou mobília nova para a casa.

Tira conclusões sobre a política brasileira como se ela fosse meramente a reencenação do roteiro do século XX com novos atores. Traduz a geopolítica do século XXI com o dicionário da Guerra Fria.

A verdade é que Geraldo sofre de uma pesada preguiça intelectual. Em algum momento da vida, acreditou saber o suficiente para “se virar” diante de qualquer nova realidade e hoje só lê opinião pronta, construindo sua “visão” com um pastiche dessas leituras apressadas, fazendo uma ou outra consideração original, geralmente meio míope.

Nosso amigo é um Intelectual Desintelectualizado – um sujeito que hoje não sustenta um debate em esfera alguma, e não abre a mínima brecha para que a realidade possa mudar conceitos que já mofaram dentro de sua cabeça.

Como domina algumas frases de efeito, alguns autores batidos e fez seu nome em tempos melhores, ainda consegue alguns “likes” e alguma atenção – basicamente de novatos que ainda não perceberam sua vaziez de bases válidas, e de gente mais antiga que divide o mesmo grau de desintelectualização progressiva.

É assim que, buscando validação (não de ideias, mas de ego), ele bosteja seu nonsense anacrônico em rodas de amigos, recebendo a aprovação dos demais barrigudos, antes do próximo gole de cerveja. Vitória! Geraldo sente-se um opinador relevante!

É que sua maior luta, na verdade, é para conservar a própria autoimagem, esse status de “pessoa com a argumentos e opinião sobre tudo”, além de manter as próprias visões de mundo a salvo da evidente caminhada da História.

Vazio de erudição, de referências e de ideias inovadoras ou significativas, seus textos tendem a parecer mornos. Essa aridez é “compensada” com virulência verbal.

Na verdade, ele está à margem do processo todo. É irrelevante, até mesmo para si – como não consegue mais digerir os fatos, sai atrás de quem o faça. Lê o articulista A e concorda com ele. Depois lê o B, e já reconsidera. No fim, tem algo a dizer sobre tudo, sem na verdade tomar lado. Tornou-se um grande agregador de pedaços de opiniões.

Espera, agitando os braços desordenadamente no mundo do debate das ideias, bater ao acaso em uma tábua que o salve do afogamento, e que o leve novamente para o navio de onde caiu lá pelo fim da adolescência.

Geraldo é uma bomba que poderia ter dinamitado muita coisa, mas seu pavio molhou. E solta fumaça pra sentir-se, assim, explosivo.