Sobre os perigos de se eleger postes

Ciro Gomes não foi ao Sindicato dos Metalúrgicos do ABC prestar solidariedade a Lula. A atitude foi recebida com indignação por muitos petistas – afinal, o novo “pai dos pobres” carregou o ex-ministro nos braços como a um filho. “Quanta ingratidão”, bradam, esquecendo que, depois de viabilizar e incensar Ciro, Luis Inácio o escanteou, colocando Dilma na reta para a Presidência.

O que foi uma burrice, claro: se o senhor Gomes fosse hoje o presidente do Brasil, muito provavelmente não teríamos passado pelo impeachment, e é bem provável que essa epopéia da prisão jamais acontecesse.

Acontece que Lula elegeu um poste.

Não quero aqui ser desrespeitoso com a ex-presidenta que, com certeza, tem seus méritos e áreas de competência (ou não teria chegado até onde chegou), mas a atuação política “linha de frente” com certeza não é um de seus dotes. Ela discursa mal, articula mal, transita mal.

Dilma, no começo do primeiro governo, ensaiou uma tentativa de firmar-se como uma figura política de vida própria. Não deu certo, e Lula e sua turma acabaram encarregados de reconstruir as pontes com a base, os parlamentares, a militância e os movimentos.

Ao escolher como sucessora alguém cujo brilho jamais deixasse de ser mero reflexo do seu, o ex-presidente garantiu a permanência de sua figura sob os holofotes. Mas deixou um flanco aberto. Bastou uma ofensiva bem articulada dos adversários para demonstrar isso.

 

 

UM DUTRA PARA CHAMAR DE SEU

Eleger postes não é, nem de longe, uma má estratégia. Ela funciona muito bem em ambientes menores, como prefeituras de interior. Há cidades nas quais um mesmo prefeito governa, de fato, por décadas, alternando o próprio nome nas urnas com o de aliados sem brilho, que no governo acabam servindo mais como “avatares” do verdadeiro chefe.

O problema é que, quando caem, os postes costumam tombar por cima de quem os instalou.

Paulo Maluf, por exemplo, após passar décadas com a fama de “rouba, mas faz” sem ser tocado, começou a viver um processo de desabamento político com as trapalhadas e o rompimento com Celso Pitta, plantado por ele na Prefeitura de São Paulo.

Getúlio Vargas talvez tenha sido o único caso, até hoje, de uma manobra bem sucedida envolvendo um poste presidencial: ao ajudar Eurico Gaspar Dutra nas eleições de 1945, o “pai dos pobres” original certamente sabia da lentidão de raciocínio, das dificuldades de fala e da falta absoluta de jogo de cintura do marechal. O fracasso (de público, principalmente) do governo Dutra ajudou a volta do próprio Vargas à Presidência em 1950.

Talvez, ao escolher Dilma ao invés de Ciro em 2010, Lula tenha visto nela um novo Dutra – completo, com a dificuldade para discursar e tudo – um Dutra para chamar de seu. Só não calculou que os Carlos Lacerdas atuais fossem tantos, tão unidos e tão fortes.

Lula certamente rendeu-se de caso pensado

Lula poderia ter fugido do Brasil. Nem seria difícil. Ele esteve em pré-campanha aqui pelo Rio Grande do Sul, passou por São Borja, andou pela fronteira, poderia muito bem ter embarcado em um automóvel e ido para o Uruguai, a Argentina, o Paraguai. De lá, para Cuba, de onde jamais seria extraditado.

O ex-presidente poderia, também, ter optado pelo suicídio. Repetindo o gesto extremado de Getúlio vargas, ele bem poderia salvar sua biografia para a posteridade. Criaria, ainda, um fato novo capaz de dar ao PT uma chance de voltar ao poder, estancar a sangria, reverter tudo. Qualquer um que conheça a história de 1954 sabe do que estou falando: indignação geral, povo nas ruas, e o esquecimento imediato de todas as baixezas e vilanias atribuídas ao suicida, agora transformado em mártir.

Entre fugir ou morrer, Lula escolheu simplesmente entregar-se. Por quê?

 

 

Das duas, uma: ou ele aposta em um levante, ou sabe de antemão que sua prisão será cênica.

Pode ser que o líder petista aposte em uma onda de indignação capaz de tirar de casa os militantes e apoiadores que, embora nutrindo ainda simpatias e votando no PT, estavam desmobilizados. Institucionalmente, esta mobilização teria – como tem – o reforço de entidades como a ONU e de governos da América Latina, da Europa, etc.

É possível, ainda, que haja um esquema como aquele preconizado pelas imortais palavras de Romero Jucá, “um pacto nacional, com o Supremo, com tudo” para “estancar a sangria”. Afinal, o próprio Jucá já falava, em suas conversas grampeadas, da necessidade de achar um “boi de piranha”. Neste caso, Lula iria preso como vão os bandidos menores de 18 anos: sabendo que vai ser solto.

Resumindo: posso estar redondamente enganado, mas só consigo entender essa rendição do Lula como uma jogada alicerçada em um cálculo muito otimista. Ou um blefe.

Por quê a imprensa descobriu agora o general Schroeder Lessa?

Aparentemente, todos os grandes jornais e sites de notícias do Brasil resolveram dar manchete às declarações do general da reserva Luiz Gonzaga Schroeder Lessa. O militar diz que, se Lula ganhar seu habeas corpus e puder concorrer novamente à Presidência, não restará alternativa a não ser uma intervenção militar “para restaurar a ordem”.

Eu não vou discutir a teoria do general Lessa. Este artigo é sobre jornalismo. Na verdade, é sobre a pressão midiática para criar um certo clima de instabilidade no Brasil.

 

 

Até estudantes de primeiro semestre de Comunicação sabem que, para cavar uma manchete de impacto, basta procurar por alguém radical o bastante, que aceite ser citado como autor de uma frase de efeito. Preferencialmente alguém já garantido, aposentado, ou que não tenha como perder nada, ou nada a perder.

O jornalismo sério, no entanto, baseia-se na investigação, na checagem de dados e na análise objetiva tanto do valor da informação, quanto do valor da fonte.

Schroeder Lessa não é um general quieto que, subitamente e pressionado pela realidade do Brasil, manifesta-se. Ele tem textos, sempre alarmistas, publicados em sites como o Rainha Maria e outras publicações conservadoras do tipo. Ninguém nunca deu bola. Não se ouvia falar dele. Até ontem.

Comecei a suspeitar da seriedade da reportagem ao ler as falas do general, repletas de palavras em desuso, e com construções lógicas que poderiam muito bem ter sido escritas por Carlos Lacerda. Como se fossem de um personagem do passado. E eram.

Luiz Gonzaga é um general do Exército, mas um general de pijamas. Tem uns de 80 anos de idade, pelo que descobri na internet. Militares aposentam-se cedo. O autor das “declarações-bomba” deve estar, portanto, fora do quartel há duas décadas, pelo menos.

Fazendo um cálculo simples, conclui-se que o auge de sua carreira e de seu poder real de comando ocorreu há uns trinta anos. Sua carreira aconteceu, portanto, durante o regime militar. Sua declaração é, portanto, previsível.

E aí voltamos à questão do mau jornalismo: até um repórter iniciante sabe que a mentalidade dos militares daquela geração não é a mesma dos da geração atual, que são os que têm as armas na mão. E eles não falam em golpe.

Somente a prática de um péssimo jornalismo justifica tamanha repercussão às declarações do general Lessa. Só para compararmos, é algo tão surreal quanto colher o depoimento de algum esquerdista octogenário, e sair dando manchetes sobre uma iminente revolução comunista comandada pelo antigo Partidão.

E se o Lula for preso?

Hoje será avaliado o pedido de habeas corpus feito pela defesa do ex-presidente Lula. Caso seja rejeitado por unanimidade, o líder petista poderá ir para o xilindró já no começo da semana que vem, dependendo da decisão do TRF4. Grandes jornais dão notícia de que a Polícia Federal já está de prontidão.

Enquanto espera ser julgado, Lula continua em pré-campanha. No discurso, o PT e seus movimentos sociais aliados acreditam em Luís Inácio e lutam por ele. Na prática, não vemos a prometida “revolução lulista” tomar as ruas – nem a militância petista parece disposta a ir para a rua apoiá-lo em massa.

Se for preso, Lula é 100% carta fora do baralho – mais do que atualmente já o é.

A presidência passaria a ser disputada, na prática, por Bolsonaro, Marina, Ciro Gomes, e um nome indicado por Temer (provavelmente Henrique Meireles).

O PT – com condenação ou não – terá que lidar com o fato de que cometeu exatamente o mesmo erro que, décadas atrás, seus militantes atribuíam ao PDT: o partido acomodou-se em ganhar eleições com a popularidade de um líder carismático, apostou todas as fichas nele e, sem ele, torna-se um partido fraco. Quem poderia substituir Lula? O Haddad? Nacionalmente, é um desconhecido. Suplicy? Maria do Rosário? Quem?

O PT fez de Lula seu próprio Brizola. A diferença é que Lula, ainda muito vivo, moribundeia politicamente; já o caudilho pedetista, pelo contrário, continua politicamente vivo mesmo tendo falecido há anos.

O outrora invencível Partido dos Trabalhadores, destituído de apoio e militância dos próprios trabalhadores (que esperavam coisa melhor depois de décadas de discurso virtuoso) e já sem o antigo poder hipnótico sobre a juventude (que migra em massa para o PSOL), uma vez perdendo seu grande puxa-votos nacional, torna-se um partido mediano. Se tiver um mínimo de decência e realismo, deverá abrir mão e apoiar algum nome de esquerda com chances. Mas eu não apostaria nisso: o PT é conhecido pela obsessão em encabeçar chapas, mesmo que suicidas.