Lancei meu novo livro “Política para Iniciantes”

Estou ainda experimentando o Amazon KDF, uma plataforma para lançamento de livros (ebooks) para Kindle. O sistema abre a possibilidade de venda do livro físico pela própria Amazon. E a obra “selecionada” para esta nova fase tecnológica da minha vida como escritor é o manual semi-maquiavélico “Política para Iniciantes”.

Trata-se de um guia bastante prático e desprovido de pendores moralistas ou ideológicos. Começa falando sobre os cargos, a estrutura dos três poderes, legislação eleitoral, e depois ingressa em assuntos mais subjetivos, como a mecânica de funcionamento REAL dos partidos. No final, o livro assume que seu leitor pretende ser candidato, e traz instruções muito didáticas sobre material impresso, campanha na internet, organização de campanha, etc.

O texto é todo permeado de dicas e macetes que você não encontrará em nenhuma obra sisuda sobre ciência política. É um livro escrito “no popular”, para quem não tem tempo a perder, e quer saber como as coisas são – não como deveriam ser.

“Política para Iniciantes” já está disponível na Amazon.

Correio do Povo – a primeira semana de um jornal centenário (Juremir Machado da Silva)

O Correio do Povo completou 120 anos em 2015 e, como parte das comemorações, o jornalista Juremir Machado da Silva escreveu aquele que, na minha opinião, é um dos melhores livros que ele já concebeu. Eu fui ao lançamento, e possuo um exemplar autografado.

A obra conta o começo da longuíssima história desse jornal, que depois originou um grupo de comunicação com TV, rádios, etc. O começo, retratado no livro, é bem humilde. E bem interessante.

No final do século XIX, praticamente só existiam jornais panfletários, ligados a causas políticas. Esse formato atual, no qual a gente lê notícias de forma supostamente imparcial, e o patrocínio vem dos anúncios publicitários (ao invés de partidos ou associações), só viria depois. Aliás, no Rio Grande do Sul, ele viria justamente com o Correio do Povo.

Juremir Machado nos conta a história sob a forma de uma narrativa literária, como se estivesse mesmo nos contando uma história. O que quero dizer é que não estamos diante de um livro enciclopédico. Em alguns pedaços, o escritor abandona a “linha do tempo” dos fatos e acaba voltando um pouco para buscar algum dado importante. É uma leitura bem suave e fluida.

O começo do livro fala pouco do jornal: o autor achou importante nos dar uma certa ambientação sobre a realidade da época. Monta um mundo para a gente entender como eram as coisas quando o Correio do Povo saiu, com o bombástico primeiro editorial.

Aqui, vou ser sincero: o começo do livro não é a melhor parte. A descrição do caráter revolucionário do novo jornal diante da imprensa atrasada do RS na época soa grandiloquente, até exagerada. E ela é esmiuçada ao máximo.

Além disso, essa parte introdutória tem alguns trechos meio tediosos, com muito palavreado, muitos adjetivos e descrições, trechos de biografias de pessoas importantes da época, e pouca ação. Para montar um primeiro perfil do visionário Caldas Júnior, o autor acabou construindo um texto com várias repetições dos eventos mais traumáticos da juventude dele. “Tá, já sei, mataram o pai dele… eu já li isso ali atrás… mataram denovo?… prossigamos…”. A gente vai lendo as primeiras páginas e se perguntando quando é que alguma coisa vai acontecer.

Até que, lá pelas tantas, ACONTECE: sai a primeira edição do Correio! Folhão, diagramação não existia, foto nem pensar. Mesmo assim, foi o máximo. Pá!

A partir daí o livro deslancha. Ganha velocidade. As coisas começam a acontecer. Até o texto ganha outro ritmo. Esse é o Juremir que todos conhecemos e amamos! O jornal de forma concreta torna-se o centro do livro. E aí ele torna-se muito legal.

A descrição dos anúncios publicitários, por exemplo, é uma verdadeira pérola do resgate histórico, ainda mais porque foi escrita para leigos, em linguagem fácil. E a gente fica pensando em tudo o que mudou nesse tempo todo na arte de vender tranqueiras para o público incauto. Fora o fato de que alguns dos produtos dizem MUITO sobre as preocupações da época, e outros chegam a ser insólitos.

A história prossegue com as primeiras edições do jornal. Muito legal, talvez especialmente para quem é jornalista, ou já dirigiu um jornal, como é o meu caso. Mas acho que o apelo vale também para o público em geral: é uma espécie de viagem à era da inocência, antes do marketing, dos conglomerados de comunicação, da multimídia.

Imprensa era isso: jornal impresso. O que saía no papel abalava a comunidade. Intelectuais tornavam-se populares, ganhavam fãs e detratores esgrimindo com palavras pela velha Porto Alegre do final do século 19.

Na verdade, Caldas Júnior começou seu jornal com um pequeno grupo de homens de origens diferentes, com “superpoderes” diferentes, desafiando o mundo. Ele tinha um ideal, tinha concepções que desafiavam o senso comum de sua época, e lançou-se ao imponderável. Deu um tiro na Lua, e acertou.

É fantástico pensar a coisa por essa perspectiva: agora, 120 anos depois, a gente olha e fica até emocionado de pensar o quão grande tudo aquilo se tornou. Toda a influência que teve. Toda a importância que aquelas folhas impressas de forma rudimentar acabaram tendo. Acho que o próprio Juremir deve ter sentido esse deslumbramento, porque ele transparece na narrativa.

A história das primeiras edições, que ocupa boa parte do livro, é também a história do impacto que o Correio do Povo causou quando caiu sobre o povo e o governo gaúchos.

Em uma época de pouca informação e muita ideologia, simplesmente noticiar equivalia a detonar uma revolução. E aí temos aqueles trechos que fazem a alegria de qualquer amante da História: fatos, a forma como as pessoas lidavam com eles, o jeito como a sociedade reagia às coisas.

As pessoas tinham noção de que estavam próximas de uma grande ruptura. Que o próximo século seria efervescente. E faziam apostas para o futuro. Algumas delas, tão bonitas que a gente fica pensando sobre o quê, afinal, deu errado para que não se realizassem.

O finalzinho da obra trata do que veio depois, e é interessante especialmente para quem não sabe muito bem o que aconteceu com o Correio do Povo ao longo do século XX. Juremir faz algumas ponderações sobre tudo isso, que nos fazem parar e pensar um pouco.

Acreditem quando digo que este é um grande livro, e deverá virar leitura obrigatória para quem quer entender essa coisa toda de jornalismo, a transição do que havia antes para o que há agora. Como viemos parar aqui.

Na verdade, nem é preciso querer entender nada: o livro é legal por si só.

Mais do que um livro de História, este é um livro com uma bela história, muito bem contada por um baita de um escritor. Que mundo fantástico era aquele! O leitor fica com uma certa saudade de uma época que não viveu.

Viver a “modernidade” de antigamente deve ter sido o máximo.

Cobras e Piercings (Hitomi Kanchara)

Acho que este é o primeiro livro de autoria de um japonês que eu li em toda minha vida, se a gente não contar mangás (aqueles quadrinhos). Saiu em 2007, pela Ediouro.

Vamos à obra: é um romance, ou seja, um livro contando uma história. Já na “orelha”, ficamos sabendo que a autora nasceu em 1983. Então, estamos falando de uma obra atual, de alguém da minha própria geração, sobre um tema atual. Muito interessante.

O livro em si, gira em torno de três jovens japoneses meio largadões na vida. Lui, uma menina meio decadente que é a narradora, Ama, o namorado dela que é um esquisitão, e Shiba, o dono do estúdio de tatuagens que é um completo psicopata, mas é um cara legal.

No texto, não temos grandes acontecimentos. Se um dia ele virar um filme, não esperem efeitos especiais nem explosões, nem tampouco figurino de época.

Mesmo assim, é uma narrativa viciante, um pedaço deixa o leitor ansioso para ler o próximo, e como são apenas 120 páginas, é perfeitamente possível “virar” uma noite de insônia para ler tudo de uma vez só. Não há momento chato na ação toda. Lui é uma figura bastante interessante. Já volto a falar dela daqui a pouco.

Primeiro, quero falar do submundo, dessa meninada, cabelo (pintado) ao vento, gente jovem (e esquisita) reunida. Logo pela capa sabemos que vai ser um livro com algumas perversões, vividas por gente tatuada e maluca. É o tipo de trama que promete nos levar a algumas situações meio limítrofes, ver algumas coisas retratadas de forma crua. Pelo menos para mim, a decisão de ler algo que começa com esse tipo de promessa se assemelha a entrar numa montanha-russa: a gente sabe que vai se arrepender de ter entrado em algum momento.

A diferença é que eu não ando de montanha-russa, mas leio essas coisas.

Bom. “Cobras e Piercings” faz a promessa de trazer algo extremo, mas é bem menos extremo do que parecia ou poderia ser. Mesmo assim, é uma boa leitura. Aliás, é uma ÓTIMA leitura, e eu recomendo especialmente para quem nunca lê nada e está cansado de fazer tentativas com livros de texto chato e ambientação anacrônica. Este aqui é leve, rápido, mais ou menos intenso, sem grandes profundidades, e se passa nos dias de hoje.

Agora, voltemos a falar de Lui. É engraçado porque, ao longo do caminho, a protagonista parece apenas uma menina bobinha e meio pirada. Só perto do final do livro temos uma noção do quão sem saída e decadente é a vida dela.

E é mais engraçado ainda porque, embora seja um retrato da “geração perdida” japonesa, “Cobras e Piercings” me lembrou de muita gente que conheci, tanto nos anos 90 como na geração de adolescentes atuais (aliás, entre estes, muito mais), aqui mesmo no Rio Grande do Sul.

No fim, temos esse romance, curto, leve, sem firulas, que fala sobre uma determinada geração, atual, da sociedade japonesa e mundial. E a grande jogada não são os dilemas, mas a ausência deles, e de qualquer outro objetivo.

15 Maneiras Diferentes de Ser Ainda Mais Feliz (José Luis Prévidi)

Este é o primeiro livro do Prévidi que tive a felicidade de ler, e a maneira como o obtive foi bem interessante: eu comentei qualquer coisa sobre a vida no Face, alguém relembrou esse livro, e eu perguntei como obtê-lo. O próprio autor respondeu. Uns dias depois, eu tinha meu exemplar, com dedicatória e tal.

Bom. O livro em si é uma coleção de 15 contos, pequenas histórias de vidas variadas. Todas com um tom leve, como se fossem causos contados por um amigo num dia qualquer. Nada de linguagem rebuscada, nada de complexidade narratória. É livro para gente comum ler. Alguns dos contos têm seis ou sete páginas, outros um pouco mais. São 117 páginas apenas, no total. E cada uma delas vale a pena ler e reler.

Não é um livro de auto-ajuda, e eu acho até que o Prévidi deve ter feito algum esforço para ficar longe deste ramo da literatura. Mas de alguma forma, a gente fica pensando sobre o quê, afinal, importa na vida.

Antes dos contos em si, tem uma parte onde o escritor conta a própria escolha: ele trabalhava no Banco do Brasil, um dia largou fora e foi ser jornalista, ganhando a metade. Como eu sou leitor do blog dele, percebo que ele é feliz fazendo o que faz. Não o imagino atrás de um balcão de banco. Daí, escreveu um livro para inspirar a gente a pensar sobre a felicidade.

A estrutura do livro, por ser formada de histórias estanques e sem relação direta uma com a outra, favorece às pessoas que não têm o hábito de ler: dá para ler um capítulo por dia e ir digerindo devagar.

Eu, no entanto, acabei lendo o livro todo em algumas horas: recebi numa sexta-feira, não consegui desgrudar dele e cheguei ao fim na noite de sábado.
Não vou detalhar as quinze histórias, mas quero dizer quais foram as minhas duas favoritas:

A do cara que era garçom, formou-se dentista e, depois de várias reviravoltas (inclusive amorosas) foi ser maitre, é muito legal porque lida com um sentimento pouco explorado na ficção: aquele da pessoa que quer uma coisa, a vida dá outra que parece até melhor, mas o cara continua obcecado com a ideia de cumprir o “destino” original.

A outra que grudou no meu cérebro é “O comerciante de ilusões”. Não sei bem por quê, mas é uma grande história, e tem uma alguma coisa que as outras não têm.

As outras treze também são muito legais, e eu acho que qualquer um que leia este livrinho sairá com sua própria lista das “tops”. É subjetivo. Cada um acaba “se enxergando” um pouco em alguma parte.

Qualquer um que leia o livrinho sairá, também, pensando em fazer alguma doideira daquelas que a gente sabe que tem que fazer, mas vai adiando.

PDT de Viamão – Fundação e Governo (Jorge Chiden)

Este livro, escrito por um político, bem poderia ser um panfletão. Mas não é. Ele acaba sendo uma belíssima peça de historiografia da cidade de Viamão, no Rio Grande do Sul. Saiu em 2011, e o autor é o ex-prefeito Jorge Chiden.

A frase de apoio ao título é a descrição ideal do que vem a seguir: “A história que merecia um livro”. Porque essa história, da forma como ela foi escrita, merecia mesmo um livro. E que livro!

Chiden não é jornalista, escritor profissional nem nada do tipo. O livro tem alguns erros de português, algumas redundâncias, e há alguns equívocos de diagramação: embora o texto diga que “ao lado vemos o balanço de tal coisa”, as versões digitalizadas dos materiais e reportagens de jornal são pequena demais para que possamos ler.

Mas, se o livro não é tecnicamente perfeito, por outro lado é uma leitura muito empolgante. Especialmente para quem mora em Viamão e conhece os personagens citados.

Sério: é um livro muito bem escrito. O conteúdo tem uma fluidez, ele carrega o leitor através das páginas. É o tipo de livro que a gente começa a ler, e não quer parar mais. Se o sujeito pega para ler tarde da noite, o sono desaparece e corre-se o risco de passar a noite em claro, para ler o livro até o final.

A capacidade “viciante” deste livro só resvala um pouco nas páginas que o Jorge dedicou à lista de obras dos governos, que é muito extensa, e acaba ficando enfadonha.

No geral, é uma baita de uma leitura. Duas coisas, principalmente, me chamaram a atenção.

A primeira, são os depoimentos e causos das campanhas, que nos levam a uma época mais inocente da política, na qual a militância dos partidos saía pela madrugada pintando muro, espalhando panfleto, passava dias acampada em vila para estruturar partido. Acho que já havia a militância paga, os famosos “agitadores de bandeiras”, que hoje vemos em toda parte, mas o papel principal era do pessoal engajado.

As histórias contadas nos dão a nítida impressão de que aquela gente viveu uma época e uma história, que mereciam mesmo ser vividas. Dá inveja até, para quem olha a partir destes nossos apáticos e desiludidos anos dois-mil-e-tantos. Os governos do PDT erraram, claro, deram trombadas, mas fizeram tudo o que fizeram tendo propósitos. Não é o tipo de coisa que se vê hoje, com um sistema partidário no qual ninguém é de esqueda ou direita, e todo mundo diz que vai “fazer mais”. Não! O governo Tapir Rocha declarava-se socialista! Os caras acreditavam mesmo nas bandeiras que empunhavam! uma coisa meio ingênua, até, se olharmos agora.

Os caras abriram um cinema popular, para conscientizar as massas, e passavam até filmes do Eisenstein para o povo!

A segunda coisa notável no livro, são as histórias dos governos do PDT. Dá para notar que as obras e realizações são quase todas de pequeno porte, mas espalhadas, e inúmeras. Eram governos que não tinham um tostão, mas tentavam fazer uma revolução na cidade. Muitas soluções eram legitimamente caseiras, mas resolviam. Havia um certo clima de “vamos fazer tudo diferente” no ar. Um clima até, de certa improvisação, de tentativa e erro, de vontade de fazer mesmo.

Um bom exemplo é o ancoradouro de Itapuã. Olhando para ele, nota-se que não é nenhuma estrutura faraônica, é uma obra bastante modesta, para uma prefeitura: clubes particulares possuem estrutura do mesmo tamanho. E no entanto foi uma grande realização dos governos do PDT. Algo relativamente simples, mas que resolveu, e continua resolvendo mesmo passados quase 30 anos.

Os depoimentos das pessoas que viveram aquelas coisas são um caso á parte. A gente hoje vê esses personagens como tiozões sentados em algum gabinete ou quietos, cuidando das vidas deles, e aí, no livro, a gente vê esse pessoal na juventude. E vou te dizer: Viamão tem mais heróis do que eu imaginava. Eu já sabia de muitas das coisas relatadas no livro, mas nunca as tinha visualizado como estou fazendo agora, durante a leitura.

Um bom exemplo é o Pedrão Negeliskii.  Eu o conhecia apenas como o diretor do Jornal Opinião, um semanário que é muito bom no quesito distribuição, mas jornalisticamente deixa a desejar. Enfim. No livro, ficamos sabendo que ele já foi uma espécie de herói esportivo da cidade, campeão de um monte de categorias de corrida, recordista estadual, uma lenda viva. Que fez muito pela cidade como Secretário de Educação. Coisas que a gente não imagina vendo o Pedrão hoje em dia.

Outros bons exemplos são o Bira Camargo, Leonel Rocha, o Natalício do gabinete do Romer, e o próprio Romer. Essas pessoas fizeram um monte de coisas interessantes, enfrentaram uma época dificílima.

O livro, claro, dá certa derrapada no “culto à personalidade”, pois enfoca de maneira muito principal (especialmente nas partes finais, na coleção de imagens e nas listagens de realizações do governo), na gestão do autor do livro, Jorge Chiden, parecendo relegar a um papel algo secundário o governo Tapir Rocha. Quando se sabe que, de fato, o grande nome do PDT de Viamão sempre foi Tapir.

Há um lado importante nessa coisa de dar destaque às façanhas do Jorge Chiden: acaba sendo um resgate histórico importante, porque enquanto o Tapir virou nome de estrada, busto na praça, nome do plenário da Câmara, e herói lendário de Viamão, seu sucessor sofreu uma espécie de esquecimento do imaginário coletivo. Algo inexplicável, quando a gente olha o tanto de coisas que ele fez no governo.

Concluindo, este é um livro de pequenas e poucas falhas, e enormes e muitíssimos acertos. Recomendo, e recomendo mesmo. Baita livro. Baita leitura. Baita história!03

Solo (Juremir Machado da Silva)

Este livro do Juremir Machado da Silva é narrado a partir do ponto de vista de um personagem perfeitamente desprezível, mas interessante. São mais de 360 páginas que fascinam enquanto falam sobre o nada.

O personagem e tema principal do livro é um sujeito que tem dinheiro. Não é rico nem poderoso, mas tem renda suficiente para viver sem trabalhar. Ele assiste a muita TV, e sofreu uma grande desilusão amorosa, com a partida de uma tal Alice, sua namorada ou algo assim. Mais adiante, fica a dúvida se ela era real, imaginária, ou real mas lembrada em uma visão idealizada.

Bom. O fato é que este desocupado não tem sentido na vida. Vê muita TV e tem um fascínio pelo personagem Louro José. Aquele papagaio da Ana Maria Braga. O interessante é que ao longo do livro vemos as contribuições filosóficas tiradas de tudo que é programa televisivo, e o livro em si parece em boa parte uma tiração de sarro com a TV.

Mais adiante na trama, o foco sai da TV e o protagonista começa a procurar suas respostas no misticismo. Procura o batuque e depois viaja, até mesmo para o Peru. O final é bastante confuso. Não se sabe mais o que é realidade e o que é ilusão, e cada leitor que conheço interpreta a coisa de uma forma diferente.

A narrativa do livro todo é em linguagem coloquial, cheia de palavrões. O personagem narra suas fantasias, taras, indecisões, suas idas ao banheiro e sua masturbação. A linguagem e a própria construção do personagem são meio decadentes, pessimistas, desiludidas.

Juremir Machado da Silva deve ter lido e traduzido livros demais de Michel Houellebecq. A falta de propósito da caminhada e da vida do “herói” de “Solo” lembra um pouco “Extensão do Domínio da Luta”, até nas personalidades relutantes e nas sexualidades sem empolgação nem glamour, algo meio “necessidade fisiológica”, dos protagonistas dos dois livros.

Solo é um livro longo. Em alguns pontos, chega a ser cansativo. Há alguma repetição. Mas a vida real é repetitiva e este é um livro realista, no sentido de que retrata um personagem comum dos dias de hoje. Apesar de absurdo, ele é plausível. Trata-se de uma obra bem escrita, que não ganhou metade da fama que deveria ter ganho, porque foi com certeza o livro de ficção mais empolgante que Juremir já escreveu. Em suas páginas, nos ensina basicamente nada, começa em coisa nenhuma e não vai a parte alguma. Mas é viciante. Quem começa a ler não consegue parar até terminar.

E, vira e mexe, bate aquela vontade de reler.