Por quê levei minha filha para ver a 21ª Parada Livre de Porto Alegre

Antes que alguns pensem que este é um blog LGBTQ, ou que eu tenho obsessão pelo tema, já deixo claro: é mera coincidência. Ou talvez o tema tenha ficado recorrente por força do subconsciente, com tanta notícia sobre a Parada.

O caso é que no último domingo, entre correrias com problemas de saúde na família, e já que estávamos mesmo em Porto Alegre, resolvi dar uma passadinha no Parque da Redenção. Em primeiro lugar, porque gosto demais do parque (ele é, para mim, o centro do Mapa Mundi). E em segundo, porque achei que minha filha de 11 anos deveria ver aquilo lá.

Ela quer porque quer morar em cidade grande. Para isso, terá que morar em apartamento e circular por ambientes públicos muito plurais, convivendo o tempo inteiro com gente muito diversificada. Por isso vi, na “Parada Gay”, um lance extremamente didático.

Para quem já mora em cidade, talvez isso tudo pareça óbvio. Mas minha filha cresceu em um ambiente no qual a cultura mais tradicional permeia quase todos os eventos, espaços coletivos e a convivência social. Além disso, as pessoas fecham-se mais em nichos. Treina-se menos a convivência pacífica com os diferentes.

“Ó, minha filha, ali tem um show, está cheio desse pessoal… mulher com mulher, homem com homem, travesti, drag queen… e ali adiante tem umas velhas sentadas perto do chafariz batendo papo… e ali adiante tem umas famílias, com crianças correndo pela grama, nada a ver uma coisa com a outra. E todo mundo está de boas. Assim é que é para ser a vida em uma cidade grande: o prédio onde tu mora, e o espaço público, é tudo assim.”

No fundo, o parque, naquele momento, serviria como uma boa metáfora para o mundo em geral: tem um monte de tribos que não têm nada a ver umas com as outras, cada uma acha seu canto, e ok.

Só duas coisas incomodaram minha pequenininha: o volume ensurdecedor da música perto do palco e o lamaçal pós-chuva do parque. Fora isso, como eu já esperava, ela ficou tranquila no meio daquilo tudo. Devorou milho e pipoca, e me deu a certeza de que, pelo menos lá em casa, eu não vou ter o tipo de debate inútil que se tem o tempo todo nas redes sociais.

E se um gay/lésbica entrar pela porta da igreja?

Um dos pastores evangélicos mais sábios que já conheci na vida me contou, há alguns dias, um dilema com o qual precisou lidar: um casal de homossexuais simplesmente resolveu começar a frequentar os cultos.

Ele mesmo viu-se em conflito. E é por isso que fui atrás da questão.

É bem provável que, se você for um “cristão padrão”, fique dividido entre a vontade de condenar a admissão desses gays no templo, e o impulso de tentar “consertá-los” exigindo que parem com suas práticas homossexuais.

E eu direi: deixemos de ser pretensiosos.

Nenhum de nós é bom o suficiente para estar diante de Deus. Essa graça só nos é dada porque cremos em Jesus, e Ele nos abre as portas para o Seu reino. De fato, não há um só justo sobre a Terra, não importa quantas horas você passe na igreja ou o quanto reprima todos os seus instintos.

Quando aceitamos Jesus como nosso salvador e entregamos nossas vidas nas mãos de Deus, estamos abrindo espaço para a atuação do Espírito Santo sobre nossos corações.

Então, digamos que Deus realmente queira que todo mundo seja heterossexual. Neste cenário, se um gay recebe a ação de Deus sobre sua vida, é natural que ele vá perdendo o desejo por outros homens e passe a desejar mulheres. Mas e se esta não for a vontade divina? Seremos nós a julgar Deus?

Uns dirão: “Ah, mas é claro que Ele não quer que ninguém seja homossexual, trans ou bi”. Este tipo de afirmação é pura mania de grandeza. Como é que EU, ou VOCÊS vamos dizer o que Deus quer para a vida de uma terceira pessoa?

Este é o tipo de coisa que não pode ser imposto sobre ninguém, muito menos pela ação humana do pastor ou dos irmãos da igreja. Não somos deuses, nem temos moral para julgar as pessoas.

Eu conheço dois cristãos que são “ex-gays”. Nos dois casos, isso não foi imposto. Veio ao natural. Posso então afirmar que Deus quer tornar todos os gays tornem-se ex-gays? Sinceramente, não cabe a mim definir isso.

Aliás, se você acredita mesmo que a vontade de Deus é ver o mundo povoado apenas por “heteros cis”, e crê que Ele tem o poder para transformar os corações dos que Nele creem, então é melhor mesmo abrir as portas do templo e dar as boas vindas a quem, com sinceridade, nele quiser entrar.