O Sul – o jornal que QUASE foi

Saiu no Blog do Prévidi.

A DUPLA ATACA NOVAMEMTE! Primeiro eles escreveram o polêmico “A RBS DESISTIU DO RIO GRANDE”.
Desta vez, o texto é do jornalista Fábio Salvador com a importante colaboração do arquiteto Eduardo Escobar.


 

No final de março de 2015, o jornal O Sul deixou de ser impresso, migrando totalmente para a internet. Agora, passados três anos, podemos analisar o que isso significou: o jornal que ia “revolucionar” a comunicação no Rio Grande apagou-se.

Para quem não lembra, o projeto original da empresa na virada do século era criar um jornal popular e popularesco para ganhar as massas. Um formato que, na minha opinião, combinaria perfeitamente com o padrão estético da rede toda.

O problema foi que a RBS correu na frente e criou o Diário Gaúcho. Aliás, histórias sobre um vazamento de informações sobre o projeto da Pampa motivando a criação do DG são até hoje uma das mais indecifráveis lendas urbanas do Rio Grande.

Privado de sua linha editorial planejada, O Sul tentou destacar-se pelo visual, meio revista e meio experimentação, sendo o primeiro jornal totalmente a cores no RS. Creio que fosse também o mais caro para imprimir.

Uma coisa curiosa é que, mesmo não sendo barato, O Sul sempre me pareceu ter muitos assinantes, em alguns bairros com carrinhos até mais forrados do que os da ZH. O quanto disso devia-se a cortesias e promoções, não sei.

Acontece que a Pampa, apesar de ser a única rede que em algum momento teve condições de suplantar a RBS (a Record tem tamanho, mas tropeça nas particularidades regionais), jamais ambicionou voos ambiciosos: o negócio dos Gadret é ganhar dinheiro, não disputar hegemonias.

 

Otávio gadret, o Sílvio Santos dos pampas.
Otávio Gadret, o Sílvio Santos dos pampas.

 

E aí, vamos a 2015: quando a Pampa anunciou o fim do impresso, houve quem a aplaudisse pela “ousadia”. A maior parte dos profissionais de comunicação que conheço, no entanto, viu naquilo o mesmo discurso usado, na época, por muitos jornais médios e pequenos do interior, deficitários e assolados pelos custos de gráfica, que tentavam glamourizar a capitulação às pressões da dura realidade. O curioso foi ver um jornal grande da capital fazendo isso.

Talvez o abandono das bancas e stands não significasse tanto, se o conteúdo permanecesse interessante. Acontece que o antigo jornal já era conhecido pelo uso generoso de material de agências de notícias, além de repiques da imprensa do eixo Rio-São Paulo. E isso só piorou com o tempo.

O Sul é, afinal, parte de uma rede que inclui emissoras de rádio que só tocam playlists. Aliás, curiosamente, o ouvinte típico dessas estações cita as manchetes do Jornal O Sul anunciadas no meio das músicas, sem jamais ter lido as matérias. Nisso, o jornal antecipou a tendência da “leitura só de títulos” que caracteriza hoje as redes sociais.

Mantendo a coerência, a “jóia da coroa” do conglomerado é uma emissora de TV conhecida por exibir pérolas como o Stúdio Pampa*, e colocar as gatinhas deste programa para apresentar noticiário, além da programação absolutamente heterodoxa da tarde. A Pampa é uma rede especializada em entretenimento, coisas coloridas e celebridades regionais alegres. Jornalismo “hard news” nunca foi o forte da casa.

Ainda quando circulava em papel, O Sul já recebia muitas críticas por sua redação exígua. Na transição, anunciavam que a equipe seria mantida. Pouco depois, no entanto, comentaristas como o Blog do Prévidi e outros já falavam nas inevitáveis demissões.

Na internet, O Sul é, visualmente, um site de notícias normalzinho, clean, colunagem uniforme. Lembra muito um daqueles temas padrão do WordPress. Não que isso seja um defeito: comparando-o com ClicRBS e Correio do Povo, o site da Pampa é o de navegação mais fácil.

 

VIRTUAL PAPER E PDF

É meio engraçado notar que, embora tenham cortado a impressão, eles mantiveram um trabalho residual de diagramação, sendo possível ler o jornal em um virtual papel, folheando na tela, ou ainda abrir um PDF da edição toda e imprimir.

A diagramação da edição folheável, no entanto, é uniforme: fotos no canto, texto colunado, em letra sans serif. Um desenho espartano, a não ser nas capas, que seguem o desenho característico do antigo impresso. Curiosidade: há anúncios de página inteira no “flip”, indicando que há anunciantes interessados no formato e portanto, suponho, boa quantidade de leitores.

 

DE GRANDE APOSTA A COADJUVANTE

Não me entendam mal: O Sul online não é um mau site de notícias. A questão é que, se antes ele era um jornal diferentoso, metido a vanguardista, hoje é um portal de aspecto genérico. Faz um feijão com arroz bem feito.

Me parece que ele ocupa a periferia da lista de prioridades da Pampa. Matérias exclusivas são raras. Grandes coberturas, que eu me lembre não existem.

O Sul tinha, quando impresso, o maior time de colunistas de toda a imprensa gaúcha. Na internet tem apenas quatro, cujas opiniões constituem o principal conteúdo próprio do veículo. Esse time bem poderia fazer mais diferença, não fosse a perda, há muitos anos, do Mendelski para a Record.

O site tem pouquíssimos espaços de propaganda (dois na capa), e estes seguidamente exibem algum banner “chamando” programas da TV Pampa (um sinal universalmente manjado de falta de patrocinadores pagantes).

Até nas pequenas coisas parece haver um certo desleixo. Itens básicos como tags “title” dinâmicas foram esquecidas ou deixadas de lado (eu estou falando sério, ao abrir uma matéria o título da página que aparece no topo da tela é a própria URL).

Na verdade, a Pampa mantém um site de notícias com alguns redatores (bons) e aparentemente quase nenhum repórter, aproveitando a marca “O Sul” após o naufrágio do projeto original de ter um jornal. Naufrágio que jamais será admitido – “não quebrou, migrou!”

* PS: Não tenho nada contra o elenco do Stúdio Pampa e, inclusive, sou partidário da volta do programa. **

** PS2: Uma das minhas desilusões na vida é que o Studio Pampa tenha saído do ar antes de eu alcançar um status de subcelebridade local digno de aparecer no show.

A RBS desistiu do Rio Grande

Saiu hoje, no Blog do Previdi:

 

Escreve o arquiteto Eduardo Escobar, com a colaboração do jornalista Fábio Salvador:

A RBS desistiu desistiu do Rio Grande

Não! Não estou profetizando uma iminente venda do que restou do Grupo RBS, aos sul do Mampituba…
Mesmo que isso passe pela cabeça da Família Sirotsky e de alguns executivos, falo de “desistir” no sentido de não estar nem aí pro que acontece no Estado. Em especial, a RBS deixou de se importar com a manutenção da “personalidade” do gaúcho que ela, de certo modo, ajudou a formatar ao longo das últimas seis décadas.

Começando com Maurício Sirotsky e, depois, com Jayme, os filhos e netos, o gaúcho percebeu que não vivia sem rádio, sem jornal e, mais recentemente, sem a TV, que unificou os diferentes rincões.

A palavra-chave do sonho do patriarca era, sem dúvida nenhuma, integração. Integração do Estado e integração dos seus veículos de comunicação. Infelizmente, o sonho do Seu Maurício não alcançará a quarta geração.

 

 

O xodó do Grupo

Comecemos analisando o xodó do Grupo: a RBSTV (ainda que eu me refira a ela, num reflexo condicionado, de TV Gaúcha) não é nem sombra do que foi um dia. Aquilo que, em tempos idos, foi uma rede de emissoras distribuindo notícia e entretenimento por todo o Estado, hoje só tem dois programas que podemos considerar “horários nobres” de segunda a sexta-feira: o Bom Dia Rio Grande e o Jornal do Almoço. Ao lado deles, temos um dos mais chatos programas regionais no final de semana, o Galpão Crioulo (que merece um capítulo à parte).

Você já notou aquelas vinhetas antes e depois de cada programa, mostrando belas paisagens do nosso Estado ou trabalhos de fotógrafos, assinado pelo Jornal do Almoço?

Aquilo parece um espaço cultural? Só que não é: ali era para estar sendo vinculado o anúncio de um patrocinador local, fixo dos programas. As vinhetas rodam porque não há anunciantes locais investindo em publicidade na TV.

A RBSTV (TV Gaúcha!) se sustenta nas cotas de anunciantes da rede nacional. Sumiram o Banrisul, a Tramontina, o Zaffari, as grandes lojas de departamentos. Dois ou três apoiadores resistem, bravamente, nos horários do JA e do RBS Notícias. No Bom Dia Rio Grande, só me vem à cabeça o comercial do pinto mole e da ejaculação precoce. E ainda assim dizem que a TV é o veículo com maior faturamento no grupo. Imagina o que sobra pros outros?

 

O grande jornal

Ah, o jornal. O que dizer sobre Zero Hora, que suplantou os veículos do antigo barão da imprensa gaúcha, o velho Breno Caldas? Primeiro, faz uns seis meses que não tenho acesso ao jornal no seu meio físico, o papel. Ele perdeu seu protagonismo, segundo os especialistas, por culpa da internet. Por isso ele migrou para dentro da web e, acreditem, tirou ainda mais o tesão pelo formato em papel.

Vocês podem estar pensando que essa falta de apelo do jornal tradicional deve-se à facilidade de acesso pelo computador. Mas não! Não, pelamôrdedeos, não!

Veja bem: primeiro, eles acabaram com a coluna policial. Os especialistas iluminados disseram que o leitor/mercado não via mais razão para um espaço dedicado à crônica policial, porque esse assunto poderia muito bem ser absorvido pelas páginas que tratassem do “cotidiano”. Depois, pararam de abordar o dia a dia das cidades, de cobrir os problemas de modo pontual, porque qualquer buraco no asfalto, qualquer ônibus lotado, começou a ser tratado pelo viés político. Se um caminhão dos bombeiros estraga, a culpa é dos políticos. Se falta uma sinaleira pras crianças atravessarem a rua e chegarem na escola, é culpa dos políticos.

E ZH se transformou em um grande jornal que só trata de dois assuntos: política e futebol. Ah! E quando falo de futebol estou falando de dupla Grenal.

 

As rádios do Grupo

Basicamente, as principais rádios canibalizaram-se. A Cidade virou Farroupilha FM, e logo ali virará qualquer outra coisa, porque a Farroupilha em duas ondas não deu certo.

A Atlântida (ATL) virou rádio de pateta e a Itapema perdeu o nome pra daqui a pouco ser engolida por essa ATL jovem. Aliás, a ATL já engoliu também a Rádio Gaúcha (ninguém notou?), o antigo orgulho da gauchada. A ideia de que onde quer que o sinal dos 600 MHz chegasse, haveria um gaúcho sintonizando a Rádio Gaúcha, virou coisa do passado.

Não existe mais nenhum programa que tenha a audiência antes registrada com os grandes comunicadores que sobreviveram à virada do século, por todo o Brasil. Jayme Copstein, Lauro Quadros, Ranzolin, Lasier. Eram figuras que extrapolavam a audiência local. Seus substitutos não servem para amarrar os sapatos destes grandes nomes do rádio.

E a fusão? A fusão da rádio e do jornal, que foi além da unificação das páginas na internet, criou um veículo que não tem o quê dizer ou repercutir.

Aliás, GauchaZH se transformou num veículo que não dá notícias. A rádio e o jornal são essencialmente veículos OPINATIVOS. Só publicam a opinião de seus jornalistas/celebridades e de seus ouvintes/leitores. E só se eles estiverem com a mesma opinião. Enfim, a rádio/jornal entrou numa espiral hedonista. É o cão lambendo as próprias bolas.

 

Cagando para o Rio Grande

Lembram do Garota Verão? A promessa era de ficar um ano suspenso e voltar mas, claro, não voltou. E antes que as feministas fiquem indignadas, o Garota Verão era um instrumento (comercial/cultural) de integração regional, ainda que explorasse a beleza de meninas. Depois disso só sobrou o porco no rolete que passava no Teledomingo, como símbolo da integração regional. Mas esse, também ele, não resistiu.

Expoagro, Expodireto, Expointer: onde estão as grandes coberturas destes eventos, que monopolizavam todos os veículos do Grupo? Onde estão os projetos como o Curtas Gaúchos?

A RBS perdeu a cobertura do Carnaval de Porto Alegre e, agora, age como se não existe mais carnaval na cidade… Porque, sejamos francos, na realidade não existe mesmo. Mas este não é o ponto.

O Grupo só investe no Gauchão porque a Globo paga com seus anunciantes a exclusividade na transmissão. Por isso a RBS finge que cobre com prazer o certame estadual. Mas, se dependesse da empolgação com que os donos do conglomerado olham para o Rio Grande, a animação já teria acabado faz tempo – como, de forma geral, fica evidente que acabou.

Sobre esse novo Canal Viamão de Notícias

Entrou no ar o Canal Viamão de Notícias, criado pelo jornalista Vinícius Santos, que já comandou a Comunicação da Prefeitura e é o “herdeiro do trono” do centenário (e meio falecido) jornal Correio Rural.

Visualmente, o novo site é uma composição simples e leve, usando como base o WordPress. Rápido no carregar, funcional, de fácil navegação e bem organizado em editorias, mistura matérias jornalísticas e textos de opinião na capa – abandonando a velha obsessão (vinda do jornalismo analógico) de separar visualmente as duas coisas.

 

 

As primeiras notícias demonstram um certo bom-mocismo politicamente correto nos assuntos e nas linguagens (algo que já vinha marcando o antigo CR nos últimos anos). Os releases da Prefeitura são uma das fontes claras de informação. Já o primeiro texto de POLÍTICA (item importante de se analisar, visto que o veículo nasce em ano eleitoral) foi sobre a vinda do pré-candidato do PSDB, Eduardo Leite, a Viamão.

Nada disso surpreende. Afinal, a redação do CVN fica na Estrada da Branquinha 299 – mesmo endereço da FACESI, a faculdade capitaneada pelo ex-prefeito tucano Valdir Bonatto.

O editor Vinícius diz, no entanto, que a política não será o assunto principal e que a ideia é focar no novo público surgido agora que Viamão torna-se uma cidade com uma população universitária significativa (não só na própria FACESI mas na PUCRS e no IFRS), com novas necessidades de informação e integração.

É óbvio que não se pode falar em neutralidade – que é uma lenda do jornalismo, uma fábula, nunca existiu de fato em parte alguma do mundo – mas, pelo que entendi, haverá uma preocupação em manter o profissionalismo, um zelo em não cair no panfletismo aberto. O quanto isso será possível com a pressão da campanha eleitoral daqui a alguns meses, ninguém sabe.

 

 

NOVIDADE E TRADIÇÃO

Por trás do visual clean, dos textos sucintos e da logomarca minimalista, o novo site tem muito em comum com o antigo Correio Rural. A começar pelos colunistas: o patriarca Milton Santos está lá, as crônicas do Pano Terra estão lá, e o esporte ficou a cargo do Saul Teixira. Há uma coluna “do leitor”. É mais ou menos “tudo como antes, no reino de Abrantes”.

Se o CVN herdou tantas características e a equipe do CR, por quê não manter o Correião? Segundo o próprio Vinícius, o nome do velho periódico não “colava” bem ao formato e à proposta do novo espaço.

A marca tradicional deverá ficar para sempre atrelada à memória do jornal fundado por seu bisavô em 1912 em mídia física, ou seja, em papel, e tornar a circular apenas SE e QUANDO, um dia, houver espaço para seu retorno como uma publicação impressa.

Correio do Povo – a primeira semana de um jornal centenário (Juremir Machado da Silva)

O Correio do Povo completou 120 anos em 2015 e, como parte das comemorações, o jornalista Juremir Machado da Silva escreveu aquele que, na minha opinião, é um dos melhores livros que ele já concebeu. Eu fui ao lançamento, e possuo um exemplar autografado.

A obra conta o começo da longuíssima história desse jornal, que depois originou um grupo de comunicação com TV, rádios, etc. O começo, retratado no livro, é bem humilde. E bem interessante.

No final do século XIX, praticamente só existiam jornais panfletários, ligados a causas políticas. Esse formato atual, no qual a gente lê notícias de forma supostamente imparcial, e o patrocínio vem dos anúncios publicitários (ao invés de partidos ou associações), só viria depois. Aliás, no Rio Grande do Sul, ele viria justamente com o Correio do Povo.

Juremir Machado nos conta a história sob a forma de uma narrativa literária, como se estivesse mesmo nos contando uma história. O que quero dizer é que não estamos diante de um livro enciclopédico. Em alguns pedaços, o escritor abandona a “linha do tempo” dos fatos e acaba voltando um pouco para buscar algum dado importante. É uma leitura bem suave e fluida.

O começo do livro fala pouco do jornal: o autor achou importante nos dar uma certa ambientação sobre a realidade da época. Monta um mundo para a gente entender como eram as coisas quando o Correio do Povo saiu, com o bombástico primeiro editorial.

Aqui, vou ser sincero: o começo do livro não é a melhor parte. A descrição do caráter revolucionário do novo jornal diante da imprensa atrasada do RS na época soa grandiloquente, até exagerada. E ela é esmiuçada ao máximo.

Além disso, essa parte introdutória tem alguns trechos meio tediosos, com muito palavreado, muitos adjetivos e descrições, trechos de biografias de pessoas importantes da época, e pouca ação. Para montar um primeiro perfil do visionário Caldas Júnior, o autor acabou construindo um texto com várias repetições dos eventos mais traumáticos da juventude dele. “Tá, já sei, mataram o pai dele… eu já li isso ali atrás… mataram denovo?… prossigamos…”. A gente vai lendo as primeiras páginas e se perguntando quando é que alguma coisa vai acontecer.

Até que, lá pelas tantas, ACONTECE: sai a primeira edição do Correio! Folhão, diagramação não existia, foto nem pensar. Mesmo assim, foi o máximo. Pá!

A partir daí o livro deslancha. Ganha velocidade. As coisas começam a acontecer. Até o texto ganha outro ritmo. Esse é o Juremir que todos conhecemos e amamos! O jornal de forma concreta torna-se o centro do livro. E aí ele torna-se muito legal.

A descrição dos anúncios publicitários, por exemplo, é uma verdadeira pérola do resgate histórico, ainda mais porque foi escrita para leigos, em linguagem fácil. E a gente fica pensando em tudo o que mudou nesse tempo todo na arte de vender tranqueiras para o público incauto. Fora o fato de que alguns dos produtos dizem MUITO sobre as preocupações da época, e outros chegam a ser insólitos.

A história prossegue com as primeiras edições do jornal. Muito legal, talvez especialmente para quem é jornalista, ou já dirigiu um jornal, como é o meu caso. Mas acho que o apelo vale também para o público em geral: é uma espécie de viagem à era da inocência, antes do marketing, dos conglomerados de comunicação, da multimídia.

Imprensa era isso: jornal impresso. O que saía no papel abalava a comunidade. Intelectuais tornavam-se populares, ganhavam fãs e detratores esgrimindo com palavras pela velha Porto Alegre do final do século 19.

Na verdade, Caldas Júnior começou seu jornal com um pequeno grupo de homens de origens diferentes, com “superpoderes” diferentes, desafiando o mundo. Ele tinha um ideal, tinha concepções que desafiavam o senso comum de sua época, e lançou-se ao imponderável. Deu um tiro na Lua, e acertou.

É fantástico pensar a coisa por essa perspectiva: agora, 120 anos depois, a gente olha e fica até emocionado de pensar o quão grande tudo aquilo se tornou. Toda a influência que teve. Toda a importância que aquelas folhas impressas de forma rudimentar acabaram tendo. Acho que o próprio Juremir deve ter sentido esse deslumbramento, porque ele transparece na narrativa.

A história das primeiras edições, que ocupa boa parte do livro, é também a história do impacto que o Correio do Povo causou quando caiu sobre o povo e o governo gaúchos.

Em uma época de pouca informação e muita ideologia, simplesmente noticiar equivalia a detonar uma revolução. E aí temos aqueles trechos que fazem a alegria de qualquer amante da História: fatos, a forma como as pessoas lidavam com eles, o jeito como a sociedade reagia às coisas.

As pessoas tinham noção de que estavam próximas de uma grande ruptura. Que o próximo século seria efervescente. E faziam apostas para o futuro. Algumas delas, tão bonitas que a gente fica pensando sobre o quê, afinal, deu errado para que não se realizassem.

O finalzinho da obra trata do que veio depois, e é interessante especialmente para quem não sabe muito bem o que aconteceu com o Correio do Povo ao longo do século XX. Juremir faz algumas ponderações sobre tudo isso, que nos fazem parar e pensar um pouco.

Acreditem quando digo que este é um grande livro, e deverá virar leitura obrigatória para quem quer entender essa coisa toda de jornalismo, a transição do que havia antes para o que há agora. Como viemos parar aqui.

Na verdade, nem é preciso querer entender nada: o livro é legal por si só.

Mais do que um livro de História, este é um livro com uma bela história, muito bem contada por um baita de um escritor. Que mundo fantástico era aquele! O leitor fica com uma certa saudade de uma época que não viveu.

Viver a “modernidade” de antigamente deve ter sido o máximo.