Correio do Povo – a primeira semana de um jornal centenário (Juremir Machado da Silva)

O Correio do Povo completou 120 anos em 2015 e, como parte das comemorações, o jornalista Juremir Machado da Silva escreveu aquele que, na minha opinião, é um dos melhores livros que ele já concebeu. Eu fui ao lançamento, e possuo um exemplar autografado.

A obra conta o começo da longuíssima história desse jornal, que depois originou um grupo de comunicação com TV, rádios, etc. O começo, retratado no livro, é bem humilde. E bem interessante.

No final do século XIX, praticamente só existiam jornais panfletários, ligados a causas políticas. Esse formato atual, no qual a gente lê notícias de forma supostamente imparcial, e o patrocínio vem dos anúncios publicitários (ao invés de partidos ou associações), só viria depois. Aliás, no Rio Grande do Sul, ele viria justamente com o Correio do Povo.

Juremir Machado nos conta a história sob a forma de uma narrativa literária, como se estivesse mesmo nos contando uma história. O que quero dizer é que não estamos diante de um livro enciclopédico. Em alguns pedaços, o escritor abandona a “linha do tempo” dos fatos e acaba voltando um pouco para buscar algum dado importante. É uma leitura bem suave e fluida.

O começo do livro fala pouco do jornal: o autor achou importante nos dar uma certa ambientação sobre a realidade da época. Monta um mundo para a gente entender como eram as coisas quando o Correio do Povo saiu, com o bombástico primeiro editorial.

Aqui, vou ser sincero: o começo do livro não é a melhor parte. A descrição do caráter revolucionário do novo jornal diante da imprensa atrasada do RS na época soa grandiloquente, até exagerada. E ela é esmiuçada ao máximo.

Além disso, essa parte introdutória tem alguns trechos meio tediosos, com muito palavreado, muitos adjetivos e descrições, trechos de biografias de pessoas importantes da época, e pouca ação. Para montar um primeiro perfil do visionário Caldas Júnior, o autor acabou construindo um texto com várias repetições dos eventos mais traumáticos da juventude dele. “Tá, já sei, mataram o pai dele… eu já li isso ali atrás… mataram denovo?… prossigamos…”. A gente vai lendo as primeiras páginas e se perguntando quando é que alguma coisa vai acontecer.

Até que, lá pelas tantas, ACONTECE: sai a primeira edição do Correio! Folhão, diagramação não existia, foto nem pensar. Mesmo assim, foi o máximo. Pá!

A partir daí o livro deslancha. Ganha velocidade. As coisas começam a acontecer. Até o texto ganha outro ritmo. Esse é o Juremir que todos conhecemos e amamos! O jornal de forma concreta torna-se o centro do livro. E aí ele torna-se muito legal.

A descrição dos anúncios publicitários, por exemplo, é uma verdadeira pérola do resgate histórico, ainda mais porque foi escrita para leigos, em linguagem fácil. E a gente fica pensando em tudo o que mudou nesse tempo todo na arte de vender tranqueiras para o público incauto. Fora o fato de que alguns dos produtos dizem MUITO sobre as preocupações da época, e outros chegam a ser insólitos.

A história prossegue com as primeiras edições do jornal. Muito legal, talvez especialmente para quem é jornalista, ou já dirigiu um jornal, como é o meu caso. Mas acho que o apelo vale também para o público em geral: é uma espécie de viagem à era da inocência, antes do marketing, dos conglomerados de comunicação, da multimídia.

Imprensa era isso: jornal impresso. O que saía no papel abalava a comunidade. Intelectuais tornavam-se populares, ganhavam fãs e detratores esgrimindo com palavras pela velha Porto Alegre do final do século 19.

Na verdade, Caldas Júnior começou seu jornal com um pequeno grupo de homens de origens diferentes, com “superpoderes” diferentes, desafiando o mundo. Ele tinha um ideal, tinha concepções que desafiavam o senso comum de sua época, e lançou-se ao imponderável. Deu um tiro na Lua, e acertou.

É fantástico pensar a coisa por essa perspectiva: agora, 120 anos depois, a gente olha e fica até emocionado de pensar o quão grande tudo aquilo se tornou. Toda a influência que teve. Toda a importância que aquelas folhas impressas de forma rudimentar acabaram tendo. Acho que o próprio Juremir deve ter sentido esse deslumbramento, porque ele transparece na narrativa.

A história das primeiras edições, que ocupa boa parte do livro, é também a história do impacto que o Correio do Povo causou quando caiu sobre o povo e o governo gaúchos.

Em uma época de pouca informação e muita ideologia, simplesmente noticiar equivalia a detonar uma revolução. E aí temos aqueles trechos que fazem a alegria de qualquer amante da História: fatos, a forma como as pessoas lidavam com eles, o jeito como a sociedade reagia às coisas.

As pessoas tinham noção de que estavam próximas de uma grande ruptura. Que o próximo século seria efervescente. E faziam apostas para o futuro. Algumas delas, tão bonitas que a gente fica pensando sobre o quê, afinal, deu errado para que não se realizassem.

O finalzinho da obra trata do que veio depois, e é interessante especialmente para quem não sabe muito bem o que aconteceu com o Correio do Povo ao longo do século XX. Juremir faz algumas ponderações sobre tudo isso, que nos fazem parar e pensar um pouco.

Acreditem quando digo que este é um grande livro, e deverá virar leitura obrigatória para quem quer entender essa coisa toda de jornalismo, a transição do que havia antes para o que há agora. Como viemos parar aqui.

Na verdade, nem é preciso querer entender nada: o livro é legal por si só.

Mais do que um livro de História, este é um livro com uma bela história, muito bem contada por um baita de um escritor. Que mundo fantástico era aquele! O leitor fica com uma certa saudade de uma época que não viveu.

Viver a “modernidade” de antigamente deve ter sido o máximo.

PDT de Viamão – Fundação e Governo (Jorge Chiden)

Este livro, escrito por um político, bem poderia ser um panfletão. Mas não é. Ele acaba sendo uma belíssima peça de historiografia da cidade de Viamão, no Rio Grande do Sul. Saiu em 2011, e o autor é o ex-prefeito Jorge Chiden.

A frase de apoio ao título é a descrição ideal do que vem a seguir: “A história que merecia um livro”. Porque essa história, da forma como ela foi escrita, merecia mesmo um livro. E que livro!

Chiden não é jornalista, escritor profissional nem nada do tipo. O livro tem alguns erros de português, algumas redundâncias, e há alguns equívocos de diagramação: embora o texto diga que “ao lado vemos o balanço de tal coisa”, as versões digitalizadas dos materiais e reportagens de jornal são pequena demais para que possamos ler.

Mas, se o livro não é tecnicamente perfeito, por outro lado é uma leitura muito empolgante. Especialmente para quem mora em Viamão e conhece os personagens citados.

Sério: é um livro muito bem escrito. O conteúdo tem uma fluidez, ele carrega o leitor através das páginas. É o tipo de livro que a gente começa a ler, e não quer parar mais. Se o sujeito pega para ler tarde da noite, o sono desaparece e corre-se o risco de passar a noite em claro, para ler o livro até o final.

A capacidade “viciante” deste livro só resvala um pouco nas páginas que o Jorge dedicou à lista de obras dos governos, que é muito extensa, e acaba ficando enfadonha.

No geral, é uma baita de uma leitura. Duas coisas, principalmente, me chamaram a atenção.

A primeira, são os depoimentos e causos das campanhas, que nos levam a uma época mais inocente da política, na qual a militância dos partidos saía pela madrugada pintando muro, espalhando panfleto, passava dias acampada em vila para estruturar partido. Acho que já havia a militância paga, os famosos “agitadores de bandeiras”, que hoje vemos em toda parte, mas o papel principal era do pessoal engajado.

As histórias contadas nos dão a nítida impressão de que aquela gente viveu uma época e uma história, que mereciam mesmo ser vividas. Dá inveja até, para quem olha a partir destes nossos apáticos e desiludidos anos dois-mil-e-tantos. Os governos do PDT erraram, claro, deram trombadas, mas fizeram tudo o que fizeram tendo propósitos. Não é o tipo de coisa que se vê hoje, com um sistema partidário no qual ninguém é de esqueda ou direita, e todo mundo diz que vai “fazer mais”. Não! O governo Tapir Rocha declarava-se socialista! Os caras acreditavam mesmo nas bandeiras que empunhavam! uma coisa meio ingênua, até, se olharmos agora.

Os caras abriram um cinema popular, para conscientizar as massas, e passavam até filmes do Eisenstein para o povo!

A segunda coisa notável no livro, são as histórias dos governos do PDT. Dá para notar que as obras e realizações são quase todas de pequeno porte, mas espalhadas, e inúmeras. Eram governos que não tinham um tostão, mas tentavam fazer uma revolução na cidade. Muitas soluções eram legitimamente caseiras, mas resolviam. Havia um certo clima de “vamos fazer tudo diferente” no ar. Um clima até, de certa improvisação, de tentativa e erro, de vontade de fazer mesmo.

Um bom exemplo é o ancoradouro de Itapuã. Olhando para ele, nota-se que não é nenhuma estrutura faraônica, é uma obra bastante modesta, para uma prefeitura: clubes particulares possuem estrutura do mesmo tamanho. E no entanto foi uma grande realização dos governos do PDT. Algo relativamente simples, mas que resolveu, e continua resolvendo mesmo passados quase 30 anos.

Os depoimentos das pessoas que viveram aquelas coisas são um caso á parte. A gente hoje vê esses personagens como tiozões sentados em algum gabinete ou quietos, cuidando das vidas deles, e aí, no livro, a gente vê esse pessoal na juventude. E vou te dizer: Viamão tem mais heróis do que eu imaginava. Eu já sabia de muitas das coisas relatadas no livro, mas nunca as tinha visualizado como estou fazendo agora, durante a leitura.

Um bom exemplo é o Pedrão Negeliskii.  Eu o conhecia apenas como o diretor do Jornal Opinião, um semanário que é muito bom no quesito distribuição, mas jornalisticamente deixa a desejar. Enfim. No livro, ficamos sabendo que ele já foi uma espécie de herói esportivo da cidade, campeão de um monte de categorias de corrida, recordista estadual, uma lenda viva. Que fez muito pela cidade como Secretário de Educação. Coisas que a gente não imagina vendo o Pedrão hoje em dia.

Outros bons exemplos são o Bira Camargo, Leonel Rocha, o Natalício do gabinete do Romer, e o próprio Romer. Essas pessoas fizeram um monte de coisas interessantes, enfrentaram uma época dificílima.

O livro, claro, dá certa derrapada no “culto à personalidade”, pois enfoca de maneira muito principal (especialmente nas partes finais, na coleção de imagens e nas listagens de realizações do governo), na gestão do autor do livro, Jorge Chiden, parecendo relegar a um papel algo secundário o governo Tapir Rocha. Quando se sabe que, de fato, o grande nome do PDT de Viamão sempre foi Tapir.

Há um lado importante nessa coisa de dar destaque às façanhas do Jorge Chiden: acaba sendo um resgate histórico importante, porque enquanto o Tapir virou nome de estrada, busto na praça, nome do plenário da Câmara, e herói lendário de Viamão, seu sucessor sofreu uma espécie de esquecimento do imaginário coletivo. Algo inexplicável, quando a gente olha o tanto de coisas que ele fez no governo.

Concluindo, este é um livro de pequenas e poucas falhas, e enormes e muitíssimos acertos. Recomendo, e recomendo mesmo. Baita livro. Baita leitura. Baita história!03