15 Maneiras Diferentes de Ser Ainda Mais Feliz (José Luis Prévidi)

Este é o primeiro livro do Prévidi que tive a felicidade de ler, e a maneira como o obtive foi bem interessante: eu comentei qualquer coisa sobre a vida no Face, alguém relembrou esse livro, e eu perguntei como obtê-lo. O próprio autor respondeu. Uns dias depois, eu tinha meu exemplar, com dedicatória e tal.

Bom. O livro em si é uma coleção de 15 contos, pequenas histórias de vidas variadas. Todas com um tom leve, como se fossem causos contados por um amigo num dia qualquer. Nada de linguagem rebuscada, nada de complexidade narratória. É livro para gente comum ler. Alguns dos contos têm seis ou sete páginas, outros um pouco mais. São 117 páginas apenas, no total. E cada uma delas vale a pena ler e reler.

Não é um livro de auto-ajuda, e eu acho até que o Prévidi deve ter feito algum esforço para ficar longe deste ramo da literatura. Mas de alguma forma, a gente fica pensando sobre o quê, afinal, importa na vida.

Antes dos contos em si, tem uma parte onde o escritor conta a própria escolha: ele trabalhava no Banco do Brasil, um dia largou fora e foi ser jornalista, ganhando a metade. Como eu sou leitor do blog dele, percebo que ele é feliz fazendo o que faz. Não o imagino atrás de um balcão de banco. Daí, escreveu um livro para inspirar a gente a pensar sobre a felicidade.

A estrutura do livro, por ser formada de histórias estanques e sem relação direta uma com a outra, favorece às pessoas que não têm o hábito de ler: dá para ler um capítulo por dia e ir digerindo devagar.

Eu, no entanto, acabei lendo o livro todo em algumas horas: recebi numa sexta-feira, não consegui desgrudar dele e cheguei ao fim na noite de sábado.
Não vou detalhar as quinze histórias, mas quero dizer quais foram as minhas duas favoritas:

A do cara que era garçom, formou-se dentista e, depois de várias reviravoltas (inclusive amorosas) foi ser maitre, é muito legal porque lida com um sentimento pouco explorado na ficção: aquele da pessoa que quer uma coisa, a vida dá outra que parece até melhor, mas o cara continua obcecado com a ideia de cumprir o “destino” original.

A outra que grudou no meu cérebro é “O comerciante de ilusões”. Não sei bem por quê, mas é uma grande história, e tem uma alguma coisa que as outras não têm.

As outras treze também são muito legais, e eu acho que qualquer um que leia este livrinho sairá com sua própria lista das “tops”. É subjetivo. Cada um acaba “se enxergando” um pouco em alguma parte.

Qualquer um que leia o livrinho sairá, também, pensando em fazer alguma doideira daquelas que a gente sabe que tem que fazer, mas vai adiando.

Solo (Juremir Machado da Silva)

Este livro do Juremir Machado da Silva é narrado a partir do ponto de vista de um personagem perfeitamente desprezível, mas interessante. São mais de 360 páginas que fascinam enquanto falam sobre o nada.

O personagem e tema principal do livro é um sujeito que tem dinheiro. Não é rico nem poderoso, mas tem renda suficiente para viver sem trabalhar. Ele assiste a muita TV, e sofreu uma grande desilusão amorosa, com a partida de uma tal Alice, sua namorada ou algo assim. Mais adiante, fica a dúvida se ela era real, imaginária, ou real mas lembrada em uma visão idealizada.

Bom. O fato é que este desocupado não tem sentido na vida. Vê muita TV e tem um fascínio pelo personagem Louro José. Aquele papagaio da Ana Maria Braga. O interessante é que ao longo do livro vemos as contribuições filosóficas tiradas de tudo que é programa televisivo, e o livro em si parece em boa parte uma tiração de sarro com a TV.

Mais adiante na trama, o foco sai da TV e o protagonista começa a procurar suas respostas no misticismo. Procura o batuque e depois viaja, até mesmo para o Peru. O final é bastante confuso. Não se sabe mais o que é realidade e o que é ilusão, e cada leitor que conheço interpreta a coisa de uma forma diferente.

A narrativa do livro todo é em linguagem coloquial, cheia de palavrões. O personagem narra suas fantasias, taras, indecisões, suas idas ao banheiro e sua masturbação. A linguagem e a própria construção do personagem são meio decadentes, pessimistas, desiludidas.

Juremir Machado da Silva deve ter lido e traduzido livros demais de Michel Houellebecq. A falta de propósito da caminhada e da vida do “herói” de “Solo” lembra um pouco “Extensão do Domínio da Luta”, até nas personalidades relutantes e nas sexualidades sem empolgação nem glamour, algo meio “necessidade fisiológica”, dos protagonistas dos dois livros.

Solo é um livro longo. Em alguns pontos, chega a ser cansativo. Há alguma repetição. Mas a vida real é repetitiva e este é um livro realista, no sentido de que retrata um personagem comum dos dias de hoje. Apesar de absurdo, ele é plausível. Trata-se de uma obra bem escrita, que não ganhou metade da fama que deveria ter ganho, porque foi com certeza o livro de ficção mais empolgante que Juremir já escreveu. Em suas páginas, nos ensina basicamente nada, começa em coisa nenhuma e não vai a parte alguma. Mas é viciante. Quem começa a ler não consegue parar até terminar.

E, vira e mexe, bate aquela vontade de reler.