Cobras e Piercings (Hitomi Kanchara)

Acho que este é o primeiro livro de autoria de um japonês que eu li em toda minha vida, se a gente não contar mangás (aqueles quadrinhos). Saiu em 2007, pela Ediouro.

Vamos à obra: é um romance, ou seja, um livro contando uma história. Já na “orelha”, ficamos sabendo que a autora nasceu em 1983. Então, estamos falando de uma obra atual, de alguém da minha própria geração, sobre um tema atual. Muito interessante.

O livro em si, gira em torno de três jovens japoneses meio largadões na vida. Lui, uma menina meio decadente que é a narradora, Ama, o namorado dela que é um esquisitão, e Shiba, o dono do estúdio de tatuagens que é um completo psicopata, mas é um cara legal.

No texto, não temos grandes acontecimentos. Se um dia ele virar um filme, não esperem efeitos especiais nem explosões, nem tampouco figurino de época.

Mesmo assim, é uma narrativa viciante, um pedaço deixa o leitor ansioso para ler o próximo, e como são apenas 120 páginas, é perfeitamente possível “virar” uma noite de insônia para ler tudo de uma vez só. Não há momento chato na ação toda. Lui é uma figura bastante interessante. Já volto a falar dela daqui a pouco.

Primeiro, quero falar do submundo, dessa meninada, cabelo (pintado) ao vento, gente jovem (e esquisita) reunida. Logo pela capa sabemos que vai ser um livro com algumas perversões, vividas por gente tatuada e maluca. É o tipo de trama que promete nos levar a algumas situações meio limítrofes, ver algumas coisas retratadas de forma crua. Pelo menos para mim, a decisão de ler algo que começa com esse tipo de promessa se assemelha a entrar numa montanha-russa: a gente sabe que vai se arrepender de ter entrado em algum momento.

A diferença é que eu não ando de montanha-russa, mas leio essas coisas.

Bom. “Cobras e Piercings” faz a promessa de trazer algo extremo, mas é bem menos extremo do que parecia ou poderia ser. Mesmo assim, é uma boa leitura. Aliás, é uma ÓTIMA leitura, e eu recomendo especialmente para quem nunca lê nada e está cansado de fazer tentativas com livros de texto chato e ambientação anacrônica. Este aqui é leve, rápido, mais ou menos intenso, sem grandes profundidades, e se passa nos dias de hoje.

Agora, voltemos a falar de Lui. É engraçado porque, ao longo do caminho, a protagonista parece apenas uma menina bobinha e meio pirada. Só perto do final do livro temos uma noção do quão sem saída e decadente é a vida dela.

E é mais engraçado ainda porque, embora seja um retrato da “geração perdida” japonesa, “Cobras e Piercings” me lembrou de muita gente que conheci, tanto nos anos 90 como na geração de adolescentes atuais (aliás, entre estes, muito mais), aqui mesmo no Rio Grande do Sul.

No fim, temos esse romance, curto, leve, sem firulas, que fala sobre uma determinada geração, atual, da sociedade japonesa e mundial. E a grande jogada não são os dilemas, mas a ausência deles, e de qualquer outro objetivo.

Da Fama à Fome (Vera Lima Ceroni)

Era 2014. Eu estava trabalhando, quando tive a chance de conhecer Vera Lima Ceroni, psicóloga, dona de uma clínica aqui em Viamão, uma mulher que me passou uma impressão de possuir tremenda força e determinação. Ela me contou uma história interessante e no dia seguinte me trouxe este livro, do qual é autora. Não é bem uma biografia, nem bem um romance. Não sei classificá-lo.

Não há ficção neste livro, nenhuma. Nem precisa. Os fatos em si são tão surreais, e a narrativa tem um ritmo tão empolgante, que é impossível parar de ler.

A personagem principal, Josi Campos, foi modelo e atriz nos anos 1980. Ganhou concursos, posou para a Playboy, fez novela. Mas na metade da década seguinte estava passando fome, com problemas psiquiátricos.

O livro não é uma biografia da ex-famosa. Não lemos quase nada sobre a “história conhecida” dos anos de sucesso de Josi. O centro da obra é o relato de uma história de vidas entrelaçadas: Josi deixou um namoradinho de juventude para ir viver a fama, esse namorado casou com a autora do livro, e no fim das contas, caindo do Olimpo da fama para a insanidade mental, Josi acaba incorporada a essa família.

Estamos falando de um livro sem firulas: ele tem apenas 77 páginas, letras grandes, espaçamento um e meio. Da primeira página até a 34, temos a história. Da 62 até a 76, uma galeria de fotos e esclarecimentos sobre a vida atual da ex-modelo. Da página 77 até o final, uma entrevista com o médico Dráuzio Varela, aliás muito esclarecedora, sobre a esquizofrenia.

A diagramação toda da obra deixou ela leve e fácil de ler. A capa é genial. E o número de páginas, a distribuição dos assuntos, foram ideais. Só não gostei das fotos, que ficaram muito escuras.

Ceroni é uma mulher sem frescuras, e o livro segue o mesmo estilo: ela não usa linguagem rebuscada nem tenta impressionar ninguém com sofisticação literária. A impressão é de que estamos diante de um relato verbal.

E não há ficção no livro. Nem precisa. Os fatos em si são tão surreais, e a narrativa tem um ritmo tão empolgante, que é impossível parar de ler. Eu mesmo li o livro todo de uma vez só. Sem parar. Sem cansar.

Pena que eu tenha apenas um exemplar (com dedicatória) dessa sensível e interessantíssima obra, senão sortearia uns para os amigos leitores.