A história do Web Jornalismo em Viamão

Este texto também poderia ter o título de “Quando éramos grande coisa”, pois fala de uma época perdida a e de nomes esquecidos na poeira do tempo.


 

A primeira blogueira do Brasil, aquela pessoa que criou o primeiro blog de toda essa imensa nação, é daqui de Viamão e eu a conheço. É a advogada Viviane Vaz de Menezes, uma figurinha simpática, querida, que conheci por acaso no centro da cidade há algum tempo.

O que ela fazia (em 1997) não era jornalismo, nem era local: ela escrevia seu blog em inglês. O que fazia sentido, já que quase ninguém acessava a internet no Brasil.

Um novo encontro fortuito com a Viviane, em 2015, me inspirou a escrever sobre os primórdios do jornalismo virtual em Viamão. A falar sobre como tudo começou, como as coisas foram surgindo. A registrar a memória dos nerds, malucos e aventureiros que começaram isso tudo, quando ainda não existia nada.

Agora, em 2021, eu adicionei uma atualização ao texto.

 

 

BRRS, o princípio de tudo

A imprensa eletrônica em Viamão começa no final de 1997 com o BRRS, um portal de notícias do Rio Grande do Sul e do Brasil desenvolvido e alimentado pelo fotógrafo Sílvio Monteiro, recém demitido no processo de privatização da antiga RFFSA.

A ideia do BRRS era bastante engenhosa: o Sílvio deu ao projeto o nome de “BRRS Sites”, e tinha a ideia de criar páginas com notícias locais de vários lugares diferentes, todas afiliadas ao BRRS. Ele produzia algumas notícias, mas apostava no envio de conteúdo por parceiros que iriam surgir pelo Brasil todo, a alimentar os mini-sites locais.

Se a empreitada tivesse sucesso, o resultado seria uma máquina de fazer dinheiro, com publicidade sendo vendida de forma pulverizada em toda parte. Mas isso nunca aconteceu. Acho que o Sílvio apostou em uma visão genial, mas cedo demais. Acabou que ele tinha, de fato, apenas um site de notícias locais. E não havia leitores conectados, ainda.

Este cara morava na vila Santa Isabel, em uma casa forrada de TVs e aparelhos antigos, sinal inequívoco do fascínio do cara por eletrônicos e tecnologia.

 

 

A primeira geração

Na esteira do BRRS, foram surgindo outras vozes locais na internet. Incluindo a minha.

Ali pela metade dos anos 2000, eu tinha um blog (hospedado neste mesmo endereço) que era um “hit” de audiência, especialmente a partir de 2008. Era um dos sites mais acessados da cidade (ao lado dos sites da Prefeitura e da empresa de ônibus, que concentravam público por razões utilitárias).

Eu dividia o topo da lista de resultados do Google para a palavra “Viamão” com o Viamão Hoje. Este site, carinhosamente chamado de “VH”, era um filhote do BRRS. Sílvio Monteiro, percebendo que ninguém dava bola para seu projeto de noticiário nacional e que a maior parte de sua audiência concentrava-se em Viamão, mudou a proposta, o nome e a URL de seu veículo.

Além de nós, havia o “Viamão Portal”, que tinha uma atualização inconstante mas foi uma iniciativa corajosa do jovem Marcos Keppler. Existia também o “Clic Viamão”, que era muito mais um guia de bairros e não um veículo noticioso.

Quando o acesso à internet começou a chegar a cada vez mais gente, com a popularização das conexões discadas, o público local encontrou uma “cena” constituída de meia dúzia de sites. Não era grande coisa, mas era o que havia. E os novos leitores virtuais aproveitavam ao máximo, acessando, comentando e debatendo nas nossas toscas páginas de antanho.

Nesse tempo surgiram, também, outras iniciativas interessantes hospedadas no blogspot, como o “Identidade Viamonense” do arquiteto Eduardo Escobar, ou o blog do professor Vilson Arruda Filho. Eles não eram, a princípio, noticiários ou opinião sobre fatos da atualidade local. Traziam crônicas, causos e curiosidades do passado da cidade.

E assim desenhou-se o período embrionário do webjornalismo em Viamão, que durou até o final da primeira década do século XXI.

Foi algo parecido com a conquista do oeste americano: os pioneiros chegam e ainda não existe nada. Tudo é mato. Pistoleiros, xerifes e caubóis vagam livremente e comandam o cenário, até a chegada da ferrovia e da civilização.

Ainda não havia público para sustentar iniciativas mais ambiciosas. Ele iria surgindo depois, aos poucos.

Mas em pouco tempo, o conteúdo disponível na web começou a provocar algum efeito na sociedade.

Naqueles tempos, as reações ao cyber-jornalismo eram interessantes. Ninguém sabia ao certo como encarar a coisa. Entre os políticos e “importantes” da época, havia quem exagerasse o poder dos sites (que ainda era muito menor que o dos impressos, pois quase ninguém tinha conexão), e havia os que os ignoravam completamente, sendo colhidos de surpresa por seu impacto justamente nas parcelas mais informadas e atentas da população.

 

 

Experimentação e gambiarras

Em termos de qualidade, tudo era muito tosco. Ninguém dominava muito bem a fórmula para a Internet. O que se tentava fazer era aproveitar a experiência nos impressos e passá-la para a tela. Os “interneteiros” locais brincavam com formatos experimentais e tentavam achar sua linguagem.

A dificuldade técnica para fazer as coisas era fantástica. Até hoje me lembro de quando o Viamão Hoje lançou um logotipo, que parecia uma bolinha em 3D com as iniciais “VH” gravadas, e todo mundo passou a lançar novos logotipos com bolinhas, tentando emular o efeito.

O designer Paulo Lilja criava coisas lindas, embora naquela época seus sites não fossem dinâmicos e não servissem, portanto, para o noticiário. Mas todo mundo tentava copiá-lo, no campo do desenho. Normalmente sem sucesso.

O Lilja mantinha páginas como as das revistas Santa Isabel e Viamão, além de ter depois desenvolvido muitos sites de políticos.

Curioso é que o próprio Viamão Hoje utilizou, por muitos anos, páginas estáticas: o Sílvio tinha um template salvo no DreamWeaver a partir do qual ele criava uma página HTML para cada notícia. E ia adicionando links para essas páginas na capa.

Com o tempo, foram aparecendo coisas mais sofisticadas, com o uso de ASP e PHP.

Em 2006, eu lancei o primeiro site 100% tableless da cidade. O uso de CSS hoje é banal mas, na época, foi novidade.

Muitos anos depois, ali por 2010, ainda era comum encontrar sites de empresas e políticos de Viamão desenvolvidas com o uso de tabelas e ainda baseadas em páginas estáticas.

Mas voltando a 2005: naqueles dias, as animações em Flash começaram a proliferar e cada um tentava fazer algo mais impressionante do que os outros. Usava-se Flash para fazer logotipos animados, propagandas, tudo – mas jamais para menus importantes porque a maioria esmagadora dos internautas ainda usava conexão discada, com as horrendas linhas de telefone fixo de Viamão.

 

 

Eles passaram, e nós… bem…

Lá nos primórdios eu via muita gente, acostumada ao formalismo e à forma demorada da elaboração do jornalismo impresso, achincalhar o meio virtual. Eram uns senhores muito sérios que imprimiam jornais e viam a web como um meio “menos nobre”. Apontavam para nós e nos chamavam de “pseudo-jornalistas”, espalhando desinformação pela rede.

Fazer internet parecia ser a brincadeira de alguns garotos que não tinham dinheiro para imprimir jornais. E de certa forma, era isso mesmo. Mas havia algo mais.

Os “velhos” tiravam sarro de nós. Diziam que escrevíamos “para ninguém ler”. Novamente, eles estavam tecnicamente certos, porque o acesso à rede ainda era bem restrito a um pequeno percentual da população.

Mas eles apostavam que aquilo não tinha futuro algum. Uma vez, tive que ouvir um desses “medalhões” me explicar que “ter um público virtual é como ter um milhão de dólares em dinheiro de mentirinha do Banco Imobiliário”. Acho que eles acreditavam que a web seria, para sempre, um meio secundário de informação.

O tempo provou que nós é que estávamos certos e eles errados. A internet veio e os engoliu a todos.

Eles passaram.

Nós… bem, nós também acabamos passando. Mas eles se foram antes.

 

 

O declínio dos pioneiros e a profissionalização

Perto do final da década, iniciou-se nosso declínio. Os jornais impressos passaram a ver algum sentido em ter também versões online e começaram a fazer a transição, aplicando ao noticiário virtual toda a força e a qualidade de suas equipes de redação.

Não que as equipes, em Viamão, fossem muito numerosas. Mas já representavam um grau de profissionalismo gigantesco quando comparadas ao velho esquema “um computador e um sujeito que sabe HTML com uma ideia na cabeça”.

A internet deixava de ser uma curiosidade ou uma aposta, e passava a ser um negócio de gente grande.

A popularização das conexões e a chegada da banda larga às casas dos viamonenses atraiu investidores e anunciantes para o novo meio. Com o surgimento de sites de notícias de formato mais elaborado, a audiência rapidamente migrou para eles.

Os blogs sofreram o primeiro impacto: como eram “noticiários de fatos comentados”, foram sendo cada vez mais vistos como espaços de opinião, não de informação. Os blogueiros foram sendo naturalmente absorvidos como colunistas dos novos portais de notícias que iam surgindo.

Eduardo Escobar tirou seu time de campo. Vilson Arruda seguiu firme com seu blogspot por mais alguns anos, até largar a corda.

Cada um encarou os novos tempos de um jeito.

Não posso falar por todos, mas posso contar minha história.

Eu até que resisti por bastante tempo, mas senti a audiência progressivamente sumindo. O velho blog manteve-se forte e com importância real, capaz de mobilizar e impactar na vida real da cidade, até mais ou menos 2011. Daí em diante, veio o declínio. Em 2013, abandonei o formato original e minha produção jornalística passou a ser toda direcionada a colaborações com um dos sites da nova safra, pois o público em busca de notícias estava todo lá. Segui assim até 2015, quando dei um fim ao meu blog. Um fim melancólico, pois ele havia sido completamente esquecido pelos antigos leitores. Aproveitei a URL para colocar no ar meu perfil profissional.

Acho que mais gente vivenciou essa época da mesma forma.

O curioso é que não foram só os blogs que perderam seu papel de “veículo de comunicação” na cidade. Os sites de notícias da primeira safra, normalmente projetos individuais tocados por idealistas solitários, também foram decaindo.

O Clic Viamão sumiu. O velho Portal, tocado pelo Keppler, idem.

O Viamão Hoje, pioneiro e precursor do web-jornalismo local, permaneceu forte por alguns anos, mas em 2015 já não tinha nem 10% da repercussão do passado. Silvio Monteiro, o criador, foi trabalhar na CEEE, e parecia mais interessado em sua nova carreira. O contabilista Leandro Rosa da Silva, o “Silva Leandro”, principal financiador do projeto, ainda parecia nutrir algum entusiasmo mas foi se envolvendo com outros projetos.

Engraçado é que, mesmo moribundo, o velho VH trazia novidades. Ele tinha uma seção chamada “TeleVia”, na qual dava para baixar e assistir a vídeos. Não era exatamente uma WebTV e nem um serviço de streaming, mas era o esboço de algo nessa direção. Enfim… só menciono isso por ser uma curiosidade interessante.

O fato é que uma nova página foi sendo virada.

O amadorismo, a experimentação – em resumo, o “faroeste” do webjornalismo em Viamão – encontrava seu fim.

 

 

Por que resolvi contar essa história

Achei importante escrever este registro para que o mundo – mas especialmente a cidade de Viamão – não perca estes fatos quando eu não estiver mais aqui. Para que as pessoas saibam como tudo começou. Para que elas possam olhar, no futuro, para um tempo em que nós, blogueiros, “siteiros” experimentais, comentando a cidade, éramos o noticiário possível na incipiente internet de então.

Um tempo de modems barulhentos, browsers que liam HTML de forma inconsistente. Um tempo em que ninguém sabia vender espaços publicitários na internet e quase ninguém sabia por quê e por quanto comprá-los.

Um tempo único, em que nós éramos “grande coisa” –  não porque fôssemos realmente grandes, mas porque ainda não havia nada. Nós fizemos o papel das primeiras casinhas de um vilarejo, que aparecem na paisagem quando tudo ainda é mato. E vão sumindo à medida em que a cidade cresce e surgem prédios, lojas e shopping centers.

Escrevo sem nenhuma ponta de recalque ou tristeza pelo espaço perdido: eu mesmo desenvolvi ou ajudei a desenvolver alguns dos sites que foram dominando o cenário. Se há algo que é permanente e onipresente neste mundo, é justamente a impermanência das coisas.

Quando um ciclo acaba para ti, ele começa para outra pessoa. E tu ficas livre para ir viver outras coisas, experimentar outras paisagens, tentar outras aventuras.

Foi bom enquanto durou, e valeu a pena. A história, provavelmente, nos absolverá.

 

 

ATUALIZAÇÃO: 2021

Em 2015, quando escrevi o texto acima, a cidade tinha uma “cena” riquíssima de sites de notícias.

Como eu já mencionei antes, o Viamão Hoje continuava no ar, mas capengando. Ele iria desaparecer um pouco depois. E eu usei a palavra “desaparecer” porque foi isso mesmo que aconteceu. Ali por 2016, o endereço viamaohoje.com.br passou a direcionar as pessoas para a página de Facebook do concurso Garota do Site. Foi uma morte silenciosa: ninguém mais ligava para o site quando isso aconteceu.

Pensando em retrospecto, acho triste que uma história épica como a do BRRS/VH tenha terminado assim. O Sílvio era um cara apaixonado e dedicado ao projeto dele. Teve esse papel crucial no começo da história local da internet. E no entanto ele corre um risco imenso de ser simplesmente esquecido, como se nunca tivesse existido.

Agora, voltando à narrativa: em 2015, tínhamos uma porção de novos sites bombando em Viamão.

O Correio Rural, o grande periódico do passado de Viamão, fundado em 1912, tinha um site que ia ficando até mais importante do que o centenário jornal impresso. O Diário de Viamão colocou no ar sua versão virtual e já ensaiava o abandono do papel. O Jornal Sexta, ainda bombando na versão analógica, também lançou seu correspondente na web, que na época chamava-se “Viamão Agora”.

Tínhamos o Portal Viamão – não aquele mesmo do Marcos Keppler e sim outro site com o nome quase igual, tocado por uma equipe, com um monte de anúncios pagos e tudo mais. E na zona rural, a população acessava diariamente sites como o Caderno040 e o Águas Claras do Sul, este ligado a um jornal impresso que teve vida curta.

Vale citar ainda as iniciativas do ousado e maluco Mário Dutra, que colocou no ar o “Jornal de Viamão” antes de lançar a versão de papel do mesmo. O Jornal de Viamão cresceu rapidamente na internet e fora dela, chegando a imprimir 20 mil exemplares em uma determinada edição. O Mário gostava de apostar alto. Chegou a comprar câmeras e montar um estúdio, inaugurando a primeira WebTV local, mas sem muito sucesso.

Acho que ele, exatamente como o Sílvio Monteiro, fez uma aposta certa na época errada. Ainda não existia um número grande o bastante de viamonenses com acesso a uma conexão capaz de receber vídeo.

Além disso, o “formato vídeo” só iria chegar às massas bem depois (continue lendo).

 

 

A era do (web) rádio

Outro fenômeno interessante desta época foram as webradios. Os primeiros anos da década de 2010 haviam sido marcados por um certo declínio das rádios comunitárias, e elas tentavam contornar a limitação de alcance de suas antenas criando sites nos quais dava para ouvir a programação ao vivo. Eram páginas recheadas de anúncios e com os designs mais bizarros imagináveis, GIFs animados pra todo lado, muito Flash, etc.

O “webradialismo” nunca fez muito sucesso em Viamão. Na verdade, apenas o radialismo comunitário chegou a alcançar um público considerável em sua “era de ouro”, ali entre 2000 e 2008. Tínhamos emissoras como a Santa Isabel FM, a Alternativa FM, a Velha Capital FM e a poderosíssima Viamão FM, que operava no nível de uma rádio comercial, com um baita elenco e uma imagem “cool”, descolada e ao mesmo tempo profissional.

Mas enfim… o assunto principal deste artigo não é o rádio. Voltemos à web.

 

 

As regras do jogo eram as seguintes…

Naquele tempo – 2015 – as pessoas utilizavam a internet em computadores desktop. As redes sociais já existiam, mas ainda não eram a “porta de entrada” do conteúdo da web para as pessoas. Este papel cabia à página inicial do navegador que cada um usava. O sujeito abria o browser e digitava o endereço do site que queria ler.

Os ativos mais importantes de um site de notícias eram o design de suas páginas, uma boa colocação nas buscas do Google, e um catálogo extenso de endereços de e-mail para envio de newsletters.

Conforme as redes sociais foram entrando no cenário, os veículos de comunicação de Viamão começaram a fazer páginas nelas. Mas não havia conteúdo publicado diretamente nesses espaços: eles serviam apenas para divulgação de links que atraíam o leitor diretamente para os sites.

Era neles, nos sites, que as pessoas navegavam e comentavam.

Os leitores assíduos de um determinado veículo de comunicação tinham o endereço dele salvo na barra de “Favoritos” do navegador. E as pessoas tinham o costume de usar o e-mail – sim, o e-mail – para enviar enviar links de notícias que por algum motivo lhes chamassem a atenção.

 

 

O ocaso dos impressos

Em 2015, estávamos no meio de um processo de transição – não apenas a nível local mas, na verdade, em escala mundial. Se em escala mundial ainda existem espaços para a imprensa de papel, em Viamão isso já é praticamente uma coisa do passado.

No começo daquela década, havia uma miríade de jornais impressos circulando em Viamão: A Tribuna, Correio Rural, Opinião, Fala Aí, Tri Bom, Águas Claras do Sul, Folha da Terra, Intercidades, Jornal Sexta, O Meio, Jornal de Viamão, e possivelmente mais alguns cujos nomes não me vêm à memória agora.

Em 2020, restavam exatamente dois semanários, e um “de vez em quandário”, que sai quando o dono arruma anunciantes. Todos com tiragens ridiculamente pequenas. Todos em seus últimos suspiros.

A “Era de Ouro dos Sites de Notícias” não enterrou apenas a primeira geração de pioneiros da imprensa virtual – ela enterrou de vez o jornalismo de papel.

Até mesmo o centenário Correio Rural, circulando desde 1912, chegou ao fim.

Aliás, a morte deste jornal merece um tópico próprio.

 

 

O fim do Correio Rural

O Correio Rural, como eu havia dito, foi fundado em 1912, por um cara chamado Alecebíades Azeredo dos Santos. Depois de uns anos, passou a ser dirigido pelo filho dele chamado Milcíades. E depois passou para o neto, Milton. No auge da “era dos sites”, o Miltão já estava passando a tocha para o filho dele, o Vinícius, que tem mais ou menos a mesma idade que eu.

O Vinícius pegou o jornal justamente quando as receitas de publicidade da imprensa tradicional estavam minguando e ele tentou responder a isso. Mas o Correio Rural, tendo passado por várias gerações da família Santos, pertencia a um monte de herdeiros. E pelo que sei, houve alguma discordância interna nesse processo.

O fato é que ele e o Milton acabaram criando um novo CNPJ, e lançaram um jornal semanal chamado simplesmente de “CR”. Era um periódico mais enxuto, com um projeto gráfico mais moderninho – aliás, bem bonito – que trazia os mesmos colunistas e a mesma linha editorial do velho Correio Rural.

O nome “Correio Rural” continuou a circular com periodicidade mensal, como se fosse uma edição especial do “CR”. Seguia uma linha mais tradicional e era um jornalão com um monte de páginas, com uma “pegada” mais próxima daquela de uma revista. Trazia umas reportagens grandes, sobre assuntos mais atemporais da cidade. Tinha um viés mais cultural.

Isso deu uma certa sobrevida à empresa jornalística do clã Santos. Mas imprimir jornais foi ficando inviável. Um dia, as máquinas silenciaram.

A história de mais de cem anos do Correio Rural chegava ao fim.

Ele, na verdade, ainda permaneceu por algum tempo “vivo” na internet, mas ninguém dava tanto crédito ao “Correião virtual”. O jornal tinha escrito sua história toda em tinta sobre folhas de papel, e um site já não parecia ser a mesma coisa. E assim ele morreu – novamente. Desta vez, pra valer.

 

 

E então vieram os celulares

Retomando a linha do tempo: eu falava dos sites de notícias que estavam bombando em 2015. O ciclo deles começou a se encerrar com uma nova mudança tecnológica.

À medida que a década de 2010 foi se encaminhando para o final – e especialmente de 2017 em diante – um novo tipo de aparelho foi chegando às mãos do povo: o smartphone.

Daí, tudo mudou.

Porque, no telefone, é muito incômodo digitar e abrir endereços em um navegador.

A maioria das pessoas desenvolveu o hábito de abrir, direto, o aplicativo de alguma rede social como o Facebook ou o Twitter, e utilizá-la como fonte primária de informação.

Muitos sites de notícias morreram diante do impacto dessas novidades.

Outros, malandramente, passaram a replicar seu conteúdo, de forma integral, em suas páginas no Face.

Até que, mais adiante, os sites propriamente ditos tornaram-se supérfluos, com tráfego próximo ao zero. E eles foram morrendo.

Isso marcou o fim de mais um ciclo do webjornalismo em Viamão.

Agora, enquanto escrevo em 2021, apenas o Diário de Viamão e o Jornal Sexta ainda mantém suas páginas no ar. Quase tudo o que existia, se foi. Toneladas de conteúdo, anos de acontecimentos da cidade, tudo desapareceu.

Portais pujantes e cheios de fotos e textos deram lugar a mensagens de erro: “esta página não pode ser encontrada”.

Indo na contramão desta tendência, surgiram algumas iniciativas novas, como o Bernardes Digital e o Canal Viamão Notícias (lançado pelo mesmo Vinícius Santos, que teve a ingrata missão de ser o último diretor do Correio Rural). Mas nada disso muda o fato de que, hoje, os sites de notícias têm uma repercussão irrelevante quando comparada à das publicações nas redes sociais.

 

 

A explosão das Lives

O Facebook tem um recurso que permite às pessoas fazerem transmissões ao vivo em seus perfis. Isso, obviamente, possibilitou que criadores de conteúdo passassem a exibir programas através dele.

Em Viamão, o primeiro programa feito profissionalmente nesta nova tecnologia foi o “JS Debates”, produzido pela mesma equipe que tocou o finado Jornal Sexta desde o início: eu mesmo, o Daniel “Cabeção” Jaeger Marques, Hélio “Piteco” Ortiz e o já citado (lá no comecinho) Vilson Arruda.

O JS Debates era exibido ao vivo pelo Facebook todas as segundas-feiras, às 20h. Já na primeira edição, teve algo como 2 mil visualizações em tempo real. Depois, iria atingir números ainda maiores. Recebeu convidados e patrocinadores. E deu origem a outros programas, como o JS Esportes e o Sala de Oposição.

As pessoas passaram a acompanhar a novidade. Cada vez mais gente na cidade pegava seu celular naquele determinado dia e horário, abria o Facebook e “via TV” por ele.

Assim, disseminou-se uma nova forma de fazer comunicação em Viamão.

Na esteira deste sucesso, outros grupos começaram a fazer transmissões da mesma forma.

Um desses grupos era encabeçado por um sujeito visionário chamado Jefferson Oliveira, professor de educação física, que criou uma grade de programação semelhante à de uma emissora de TV toda voltada às transmissões ao vivo no Facebook e, depois, também no Youtube.

Assim, nasceu a Metropolitana Web.

Ela era, na verdade, uma webradio, que podia ser escutada no próprio site ou por um aplicativo – exatamente como as outras webradios que descrevi lá atrás – mas que também exibia suas atrações em vídeo direto do estúdio.

A “Metrô” acabou acumulando uma pequena legião de fãs que assistem a vários programas, exatamente como fazem os telespectadores da TV tradicional que têm preferência por algum canal específico.

A emissora começou com um estúdio pequenininho, que funcionou por muito tempo em uma sala do polo local da Uninter. Hoje, com o nome de Metropolitana TV, está sediada no TecnoPUC de Viamão e é provavelmente o veículo de comunicação local que tem a maior audiência da cidade.

Indo na mesma linha, surgiram depois outras produtoras de conteúdo apostando na mesma ideia, como a Midia+ Multiplataforma e outras.

A Gazeta FM, uma emissora de rádio comunitária da vila Santa Isabel, também colocou câmeras em seu estúdio e começou a transmitir seus programas de forma “televisiva” no Facebook e no Youtube.

Foi nela que ocorreu, por exemplo, o principal debate das eleições de 2020, entre os candidatos a prefeito de Viamão.

 

 

Para onde vão as pessoas?

É importante ressaltar que, a cada mudança de fase da história do webjornalismo viamonense, um monte de gente sai da arena. Mas algumas pessoas permanecem e vão se reinventando. Os veículos que surgem na nova tecnologia dominante acabam absorvendo personagens de fases anteriores dessa história.

Um bom exemplo é o professor Vilson Arruda, personagem já de dois capítulos dessa história, e que hoje faz parte do elenco da Metropolitana TV. O mesmo Arruda mantém um grupo no Whatsapp no qual só ele pode publicar mensagens – na prática, é um blog cujos leitores são as pessoas que entram lá.

Eduardo Escobar também segue no jogo, participando de programas da Midia+.

Se não me engano, Mário Dutra vira e mexe faz alguma coisa no Facebook. E assim por diante.

O fato é: as pessoas não vão simplesmente sumindo à medida que novos atores entram no palco. Ou melhor, algumas delas se vão. Mas outras ficam. E há quem tenha ido, e um dia volte. Mas isso é mais raro.

 


 

Uma constatação sobre as pessoas:

Eu fico feliz de ver que os aventureiros do webjornalismo viamonense que caem fora dessa arena, ou que são sobrepujados quando o cenário muda, raramente tornam-se pessoas frustradas. Na maior parte dos casos, esses malucos seguem adiante levando a experiência que adquiriram, e acabam fazendo coisas maiores de suas vidas.

Acho que isso se deve ao fato de Viamão ser um lugar absolutamente ingrato para se fazer comunicação. Acaba que as pessoas dispostas a entrar nesta “roubada” já têm, geralmente, um espírito mais audacioso e determinado do que a média da população. Talvez isso explique o porquê de terem sucesso em suas novas empreitadas.