Livros em Domínio Público para download

Existem centenas de livros que já caíram em domínio público, ou que foram lançados sob licenças free. Nesta página, estou reunindo obras selecionadas, todas legalmente disponíveis para download gratuito em formato ePub e PDF.

 


A ESCRAVA ISAURA

  

Hoje mais conhecido sob a forma de uma novela da Globo, o romance escrito em 1875 por Bernardo Guimarães é um clássico da literatura brasileira. O lançamento desta obra aconteceu em uma época de grande debate sobre a escravidão, e a história contada nela tem um forte viés abolicionista, disfarçado sob a narrativa romântica.

Isaura é filha de uma mulher negra, mas tem a pele branca como a do pai. Apesar da aparência “branca”, ela é escrava de um senhor cruel e pervertido, que a submete às maiores humilhações. Com esta fórmula, o autor conseguiu criar uma personagem com a qual o público branco pudesse criar uma rápida identificação e empatia, levando-o a enxergar a realidade da escravatura pelo lado normalmente relegado ao negro. Uma jogada inteligente, na minha opinião.

Entendo “A Escrava Isaura” como uma espécie de obra obrigatória – se não oficialmente, ao menos moralmente.


A DESOBEDIÊNCIA CIVIL

 

Henry David Thoreau era um sujeito realmente interessante. Naturalista, pensador, um sujeito multifacetado e inteligente. Insatisfeito com a sociedade de sua época, ele ia ás aldeias indígenas desarmado para aprender com os “selvagens” e chegou a morar por dois anos no meio do mato.

Um dia, acabou preso por não pagar seus impostos – o escritor não queria dar dinheiro para um governo que, na época, aceitava a escravidão e travava uma guerra de conquista contra o México. Ficou só um dia na cadeia, mas dali saiu para escrever este livro, publicado em 1849 – uma pérola da rebeldia, livre de utopias e carregada de bom senso.

Thoreau nunca liderou um movimento de massas, nem propôs uma revolução. A revolta dele tem um sentido individual. É muito mais um grito de “basta” diante da massificação do que qualquer outra coisa.

Para mim, em uma análise meio “de boteco”, Thoreau foi o primeiro grande punk.


THE LUSTFUL TURK

 

“The Lustful Turk” foi publicado anonimamente em 1818 por John Benjamin Brookes, em plena Inglaterra pré-vitoriana. Este livro acabou alcançando grande popularidade muitos anos depois, em 1893. Trata-se de uma história erótica, contada em formato epistolar (simulando cartas), estilo muito comum no século XIX. Suas personagens principais são duas moças britânicas levadas como escravas ao harém de um dignatário turco.

O sujeito é um tarado mas, curiosamente, não um monstro: ele serve como contraponto aos tabus e recalques da sociedade britânica da época. As próprias personagens femininas, mesmo sendo prisioneiras, têm personalidades próprias. E falam abertamente sobre suas sensações e vivências, algo incrível em uma época na qual o prazer sexual feminino era um assunto absolutamente negligenciado. No mais, trata-se de uma obra leve e muito interessante.

O texto disponível aqui é a versão original em inglês – uma leitura interessante para quem domina o idioma, e um material útil para quem o está aprendendo. Ainda mais porque contém muito poucos arcaísmos, e o vocabulário também não é muito rebuscado.


 

THE QUADROONS (from The Liberty Bell)

 

Lydia Maria Child foi uma escritora norte-americana pouquíssimo conhecida no Brasil, mas que faz parte da história de um dos capítulos mais nobres da história dos EUA: o movimento abolicionista.

Em “The Quadroons”, uma história relativamente curta, ela narra as vidas de uma família enroscada na contraditória sistemática racial da época.

Uma mulher mestiça livre e um homem branco vivem juntos, mas não podem celebrar um casamento oficial. Da união nasce uma filha. E a história toda desenrola-se de uma forma que não posso descrever sem dar spoilers.

É uma leitura que, garanto, vale a pena. O texto aqui é o original, publicado no anuário anti-escravagista “The Liberty Bell” de 1842 e, como boa parte das coisas que leio e recomendo, está em inglês.

 


DESIREE’S BABY

 

Publicada em 1893, esta história curta se passa na Louisiana um pouco antes da Guerra Civil Americana. O tema, espinhoso para a época, é a miscigenação.

A autora, Kate Chopin, conseguiu criar uma espécie de clima peculiar nesta obra. O leitor vai mergulhando na história enquanto a escritora, sem fazer alarde e nem descambar para a “lacração”, joga na cara do leitor da época a relatividade, hipocrisia e o absurdo da noção de “raça” e de “pureza racial”.

O engraçado é que a sensação de “tapa na cara” que muitos americanos brancos devem ter sentido ao ler isso aqui há mais de um século pode acometer muita gente em pleno século XXI. Afinal, se o número de supremacistas no mundo é pequeno, o de infectados com o “vírus” do racismo inconsciente é imenso.

Vocês só vão entender o que estou dizendo, quando lerem a obra. Ela está em inglês. Se eu não entendesse a língua, acho que valeria a pena APRENDÊ-LA só para ler este livro. Não estou brincando.


 

A DIVINA COMÉDIA

 

Antes de mais nada, é importante dizer que “comédia”, aqui, não significa que o texto seja engraçado – no começo do século XIV, quando Dante Alighieri escreveu sua obra, a palavra designava obras com final feliz. “Comédia” era simplesmente um antônimo de “Tragédia”. Então, não espere encontrar piadas neste livro.

O primeiro volume desta obra saiu em 1304, e o último em 1321. Na narrativa, expressada em forma poética, Dante Alighieri nos carrega em uma viagem pelo mundo dos mortos, recheada de personagens, pequenas histórias, observações, lugares e montes de alegorias, numa espécie de “sandbox” filosófico. Não é a toa que “A Divina Comédia” é considerada uma das maiores obras da literatura ocidental.

Eu, sinceramente, não achei a leitura deste livro DIVERTIDA, mas ele tem um valor cultural tão imenso – eu diria que é um MEME cujo impacto já dura alguns séculos – que sua leitura é mais ou menos um requisito básico para a vida. Se a pessoa, ao morrer, nunca leu a Divina Comédia, parece que… ficou faltando alguma coisa, entende?


DOM CASMURRO

 

Machado de Assis dispensa apresentações e, de certa forma, “Dom Casmurro” também. A obra, originalmente publicada em livro em 1900, virou uma espécie de ponto de referência da literatura brasileira.

Ao contrário do que se espera de livros listados para o vestibular e considerados clássicos, este aqui não é NADA sonífero: a narrativa é cativante, os personagens são intrigantes.

Não é a toa que, há 120 anos, uma parte significativa da população tenha sido capaz de entender a referência contida naquela velha pergunta… afinal, Capitu traiu ou não traiu?


ELOGIO DA LOUCURA

 

Erasmo de Roterdã era um sujeito sério. Trocava cartas com Thomas More (o autor da “Utopia”), e indignava-se com o que via ao seu redor. Em “Elogio da Loucura”, sua ideia era expor a hipocrisia e os absurdos reforçados, na época, pelo stabilishment católico. O problema é que o livro ficou tão bom, que até o Papa da época adorou. E o que era para ser uma facada nas consciências acabou sendo absorvido como fenômeno pop. E isso, em 1511.

A leitura hoje parece meio delirante e até tediosa em alguns trechos mas, em sua época, provocou uma revolução – se não de ideias, ao menos de estilo. E segue sendo um conteúdo bem interessante, mesmo séculos depois.


A ARTE DA GUERRA

 

Estamos aqui diante de um livro que, na verdade, dispensa qualquer tipo de apresentação. Sun Tzu, general chinês do século 5 antes de Cristo, escreveu um manual para estrategistas militares. A questão é que ele, sendo na verdade um mestre na arte de comandar, acabou dando ao mundo um guia sobre a natureza humana e sobre liderança.

Hoje já não fazemos guerras com carroças e espadas, mas a leitura de “A Arte da Guerra” permanece relevante, importante, essencial.

Muito mais do que um simples livro escrito por um chinês sobre a “arte” de matar outros chineses e alguns mongóis, o que temos aqui é um tratado sobre a vida, as pessoas, força moral, planejamento e iniciativa –  as coisas que fazem dos grandes líderes aquilo que eles são.


A REPÚBLICA

 

Platão foi um dos maiores filósofos da antiguidade e sua obra tem, ainda, um “plus a mais” porque o pensador era aluno de Sócrates. E como Sócrates não deixou nenhum registro escrito de seus pensamentos, é através de Platão que o conhecemos de forma mais nítida. Assim, a obra do aluno acaba tendo a dupla preciosidade de trazer não apenas suas ideias mas, também, as de seu professor.

Ora, “A República” é um livro longo, às vezes meio monótono para o leitor atual. Mas há momentos preciosos. A parte mais interessante, para mim, é que é nele que o pensador dá ao mundo a imortal Alegoria da Caverna, essencial para compreender o amor à ignorância que permeia nossa sociedade atual.


OS LUSÍADAS

 

Ah, os portugueses… hoje, um povo europeu mais ou menos periférico, com seu pequeno e lindo país. Nem de longe alguém hoje poderia imaginar Portugal como uma superpotência agressiva e dominadora. Mas no passado, sim, nossos irmãos lusófonos foram tudo isso. E talvez até, muito mais!

“Os Lusíadas”, de Luís de Camões, é uma obra poética que basicamente nos faz mergulhar no épico português: um dos primeiros Estados Nacionais da Europa, país que tomou a frente nas Grandes Navegações e que, ao lado da Espanha, dividiu o planeta Terra, dominando metade dele.

O livro é um clássico, claro. É a história e o espírito de um tempo que se foi. E embora sendo meio complicado de entender, e meio chato também, eu acho que é leitura obrigatória. Porque não só o Portugal de hoje, mas em especial o Brasil, é filho da bravura e da ganância dos aventureiros retratados nestas páginas.


A FARSA DOS CRIMES HOMOFÓBICOS NO BRASIL

 

Dário Di Martino Jr. é um personagem polêmico. Candidato diversas vezes pelo PRONA, dizia-se “de direita” em uma época na qual o rótulo de “direitista” equivalia a lepra no Brasil. Sua obra literária é controversa e corajosa.

Em “A Farsa dos Crimes Homofóbicos”, ele faz um estudo caso a caso das mortes enumeradas no relatório do Grupo Gay da Bahia em 2013. A ONG contabilizou mais de 300 crimes do tipo no ano. Políticos, imprensa e sociedade tomaram os números como verdade absoluta. Dário, na contramão, demonstra que o GGB incluiu nesta conta casos como acidentes de trânsito, latrocínios, suicídios e até mortes naturais.

O que torna este livro interessante, para mim, nem é o contraponto às estatísticas do GGB. Concordo que os números da ONG parecem ter sido grosseiramente manipulados, mas me desagrada pensar que este “flagra na mentira” possa acabar virando munição para grupos realmente preconceituosos.

O ponto alto, para mim, é que este livro demonstra a falibilidade dos números, sempre usados como “argumentos matadores” por inteligentinhos.

Dário Di Martino nos mostra que, usando a metodologia “certa” e havendo um público ávido por acreditar, pode-se dar um verniz de credibilidade a praticamente qualquer coisa que se queira neste mundo.


O PEQUENO PRÍNCIPE

 

Aqui temos mais um livro desta coleção que dispensa apresentações. Praticamente todo mundo já ouviu falar das aventuras do garoto vindo do planeta B-612, de sua rosa, do baobá, dos mundos bizarros visitados por ele.

“O Pequeno Príncipe” pode parecer uma história boba, fantasiosa e meio infantil para quem o lê superficialmente. Mas este é um livro clássico e mundialmente famoso por um bom motivo: ele fala daquilo que perdemos quando nos tornamos adultos. E nos leva a uma viagem de volta à sanidade, ao colorido, ao essencial.

É mais uma daquelas obras de leitura obrigatória, sem as quais uma pessoa não pode dizer que realmente saboreou as maravilhas culturais desta vida. A vantagem é que, ao contrário de outros trabalhos considerados clássicos, o texto desse aqui é bem agradável e a história é envolvente.


O ALIENISTA

 

Estamos aqui diante de mais um daqueles livros antigos, conhecidos, cultuados, e que no entanto não são chatos. “O Alienista” é uma leitura deliciosa, com uma história envolvente, uma premissa interessante e uma linguagem agradável e simples.

O enredo é o seguinte: o doutor Simão Bacamarte, um alienista (psiquiatra), resolve construir um manicômio e começa a internar os loucos da cidadezinha onde vive. Com o tempo, ele começa a enxergar loucura nas esquisitices e desajustes de todo mundo, e interna praticamente a população toda.

Depois, temos alguns “plot twists” que nos fazem questionar o conceito de loucura e normalidade – a paranoia do doutor Bacamarte é mais ou menos um reflexo da obsessão por padrões e normatização que permeia a “ideologia” dos tempos modernos.

É como se Machado de Assis tivesse visto, em uma bola de cristal, o quão idiota seria a sociedade do século XX e, em certa medida, até mesmo este nosso século XXI dominado pela ideologia da “felicidade e conformidade obrigatórias”.

Resenhas acadêmicas e reviews de gente séria normalmente classificam “O Alienista” como uma “obra humorística”. Já eu, acho-o bastante filosófico.


O CORTIÇO

 

O cenário dessa história é o Rio de Janeiro do século XIX. Um português chamado João Romão, dono de um cortiço, um mercadinho e uma pedreira, começa a ficar rico e quer entrar pro high society. E vou te dizer… este cara é um GRANDESSÍSSIMO FDP. Porque ele, em seu caminho de ascensão social, faz uma m**** atrás da outra. E não, o universo não o pune.

Lembro de ter lido este livro pela primeira vez ainda na escola. Alguma coisa me fez gostar da obra. Engraçado é que, quase 30 anos depois, eu continuo apaixonado por ela.

“O Cortiço” é uma espécie de épico brasileiro – como “O Poderoso Chefão”, acompanha a jornada de um cara que é um “nada” até ele virar “alguém”.

Romão é um sujeito de muitos vícios e poucas virtudes, com um tempero bastante brasileiro. Um retrato nu da classe média tupiniquim com ambições de pertencimento à aristocracia. Ele é um bundão, com uma autoimagem de “empreendedor”.

Mas Romão é apenas o eixo central da narrativa. Ao contrário de outras obras da época, que focam-se em uma figura ou uma família só, “O Cortiço” se assemelha muito a uma telenovela, com vários núcleos de personagens e “subplots” interessantes.

E além dos personagens, existe o tecido social e a cidade ao redor. A forma como tudo isso se transforma, como a vizinhança vai tomando forma e mudando de perfil, de paisagem. É impossível ler sem imaginar tudo acontecendo. É algo que remete às transformações que nós, leitores, vemos nas nossas próprias cidades. É uma experiência de imersão.

Em resumo: é um baita livro.