UMA AULA “GROSSO MODO” SOBRE VENDAS

Já faz muito tempo, mas lembro como se fosse ontem: era 2005 e eu editava um jornal chamado “A Cidade”. Meu amigo Daniel Cabeção era um dos meus colunistas, vejam vocês. E eu precisava de uma câmera digital.

Sim, crianças: houve um tempo no qual não tínhamos smartphones. Os celulares eram enormes, e só serviam para telefonar. Se você quisesse bater fotos, precisava de uma câmera. E eu não estou falando de fotos digitais: a maioria das pessoas ainda usava máquinas com filme mesmo.

Mas eu era um cara moderno, editor de um jornal moderno, e fui atrás de uma câmera digital. Acho que foi no BIG que tudo aconteceu…

Me deparei com os caríssimos modelos da Sony. Ao lado, um garoto tentava convencer as pessoas a olharem os da Fuji. Resolvi das uma chance.

“Tá, guri… qual a definição de imagem desta aqui para fotos?” – e ele me respondeu com um número qualquer de megapixels.

“E para filmagem, qual a definição?” – e coitado não sabia. Pegou o manual da câmera, e leu “VGA”. Só que ele não sabia o que diabos era o tal “VGA”. Não sabia tratar-se de um sinônimo para imagens 640X480. E não sabia que as TVs “de tubo”, as únicas que tínhamos na época, exibem imagens exatamente nesta definição. Ele, para resumir, não sabia praticamente nada sobre imagens e filmes digitais. Ao contratá-lo, a Fuji deu-lhe uma semana de aulas sobre vendas – e nem um minuto de instrução sobre o objeto do que ele precisava vender.

Expliquei-lhe algumas coisas sobre câmeras, mas disse-lhe uma coisa ainda mais importante: antes de vender alguma coisa, tente ficar íntimo, tente apaixonar-se por aquilo que pretende vender. Um carro usado, por exemplo, não é só metal e plástico velho: ele é uma história.

Máquinas, produtos e serviços são fascinantes se você os olha além da superfície. E você precisa entusiasmar-se com o produto antes de pensar em empolgar os outros a comprá-lo.03

SER PAI É TORCER PARA TER ACERTADO

Ninguém nunca está preparado para ter filhos. Você pode ter lido tudo sobre o assunto, e não saberá tudo. Só idiotas presunçosos consideram-se prontos para uma coisa dessas. Sua presunção os impede de assumir que são idiotas, e sua idiotice os impede de ver que são presunçosos.

Eu sou pai há anos, e ainda não me considero pronto. Ninguém nunca estará. Não há pai ou mãe infalível neste mundo. Mas, ás vezes, a vida nos dá a chance de medir se, em linhas gerais, estamos acertando.

Aconteceu comigo: levei o Gabriel, 6 anos, ao parquinho da Redenção. Aquilo é a Meca dele. Se ele já tem uma concepção do que seja o Paraíso, com certeza é daquele jeito. Comprei cinco ingressos e ele começou seu roteiro quinzenal: naves, carro-choque, pescaria, etc.

Havia umas crianças pelo parque, pedindo dinheiro. Indiozinhos, já habituais ali. Quem nos abordou foi uma menina muito menor do que a média dos garotos-pedintes de sempre. Certamente a mando dos pais, ela também pedia moedas, mas seus olhos não desgrudavam do trenzinho. Ela provavelmente passava seus dias ali, só olhando os outros brincarem.

Não foi preciso pedir ao Gabriel, nem argumentar, nem nada: ele sacou do bolso um de seus ingressos e pôs na mão da indiazinha, que abriu um sorriso enorme. E lá se foram os dois, andar de trem.

“Se eu tenho um pão, e você não tem nenhum, então nós dois temos meio pão.”