E se um gay/lésbica entrar pela porta da igreja?

Um dos pastores evangélicos mais sábios que já conheci na vida me contou, há alguns dias, um dilema com o qual precisou lidar: um casal de homossexuais simplesmente resolveu começar a frequentar os cultos.

Ele mesmo viu-se em conflito. E é por isso que fui atrás da questão.

É bem provável que, se você for um “cristão padrão”, fique dividido entre a vontade de condenar a admissão desses gays no templo, e o impulso de tentar “consertá-los” exigindo que parem com suas práticas homossexuais.

E eu direi: deixemos de ser pretensiosos.

Nenhum de nós é bom o suficiente para estar diante de Deus. Essa graça só nos é dada porque cremos em Jesus, e Ele nos abre as portas para o Seu reino. De fato, não há um só justo sobre a Terra, não importa quantas horas você passe na igreja ou o quanto reprima todos os seus instintos.

Quando aceitamos Jesus como nosso salvador e entregamos nossas vidas nas mãos de Deus, estamos abrindo espaço para a atuação do Espírito Santo sobre nossos corações.

Então, digamos que Deus realmente queira que todo mundo seja heterossexual. Neste cenário, se um gay recebe a ação de Deus sobre sua vida, é natural que ele vá perdendo o desejo por outros homens e passe a desejar mulheres. Mas e se esta não for a vontade divina? Seremos nós a julgar Deus?

Uns dirão: “Ah, mas é claro que Ele não quer que ninguém seja homossexual, trans ou bi”. Este tipo de afirmação é pura mania de grandeza. Como é que EU, ou VOCÊS vamos dizer o que Deus quer para a vida de uma terceira pessoa?

Este é o tipo de coisa que não pode ser imposto sobre ninguém, muito menos pela ação humana do pastor ou dos irmãos da igreja. Não somos deuses, nem temos moral para julgar as pessoas.

Eu conheço dois cristãos que são “ex-gays”. Nos dois casos, isso não foi imposto. Veio ao natural. Posso então afirmar que Deus quer tornar todos os gays tornem-se ex-gays? Sinceramente, não cabe a mim definir isso.

Aliás, se você acredita mesmo que a vontade de Deus é ver o mundo povoado apenas por “heteros cis”, e crê que Ele tem o poder para transformar os corações dos que Nele creem, então é melhor mesmo abrir as portas do templo e dar as boas vindas a quem, com sinceridade, nele quiser entrar.

E se eu não quiser usar terno/saia na igreja?

Esta é uma questão que aflige a muitos cristãos pelo mundo todo e, se você algum dia perguntou sobre isso ao pastor da sua igreja, é bem provável que ele tenha dito que a roupa é sinal de “respeito a Deus”. O que é uma bobagem: Ele vê os nossos corações, não nosso visual.

Na Bíblia, não há nenhum manual de vestimenta. Pelo que andei lendo no Novo Testamento, Jesus não ligava muito para roupas. De fato, os grandes preocupados com trajes e adornos eram os caras maus do templo, os sacerdotes que, no fim das contas, queriam vê-Lo morto e esquecido. Eles, sim, preocupavam-se imensamente (e acreditavam que Deus estivesse preocupado) com suas roupinhas brilhantes, apetrechos de ouro, cabelo e barba.

As regras de vestimenta e aparência são criações do homem, e não mandamentos de Deus. Poderíamos estar todos no culto usando fantasias dos Vingadores, que não faria diferença alguma, desde que a fé fosse sincera.

A salvação é pela fé, não pelas obras e muito menos pela moda.

Agora, espere: antes de sair de sunga para a igreja, leia o que tenho a dizer.

Igrejas podem ser instrumentos do Senhor, e são super importantes para o crescimento espiritual de cada membro do Corpo mas são, também, entidades com CNPJ e estatuto. E essas instituições podem ter certos parâmetros institucionais.

Isso quer dizer o seguinte: que eu posso muito bem ir a uma igreja “sisuda” usando bermuda só para assistir ao culto. No entanto, se eu quiser dar assistência, ler a Palavra ou realizar qualquer outro trabalho dentro da estrutura desta instituição, eu vou precisar vestir um terno, ou seja lá qual for a “roupa padrão” dos obreiros daquele lugar.

Trata-se de uma questão prática. Para novos visitantes, é importante demonstrar certa unidade visual e tornar o pessoal “de dentro” facilmente reconhecível.

Então, você não vai perder a Salvação só porque não está usando determinado corte de cabelo, barba, ou uma roupa específica. Aliás, eu recomendo que você jamais coloque-se em uma situação que te pareça artificial, contraditória ou falsa. A artificialidade tira a comunhão.

Lembe-se: Deus quer que nos apresentemos com sinceridade. Que nos sintamos bem em Sua presença.

Toda vez que você força a própria barra só para fazer bonito no templo, está fazendo um esforço social, não de fé. Uma coisa para os outros verem, não para Deus.

Quando uma igreja tem sua atenção mais voltada às roupas de seus fiéis do que à fé deles, ela provavelmente não presta. Deus é onipresente, e certamente você pode buscá-Lo em outro prédio com outra placa na porta.

Se você não está frequentando uma igreja para subir nas funções dentro dela, não tem com que se preocupar. E se os “irmãos” começarem a te julgar por isso, lembre-se que eles é que estão contrariando os ensinamentos de Jesus.