A Luta Continua!

Pode ser que, aos mansos, esteja mesmo destinado o Reino dos Céus. Mas são os bravos que escrevem a história daqui do reino aqui da Terra.

Então, nunca – NUNCA – renuncie à inteligência e ao bom senso só para agradar ao amigo, ao eleitor, ou para sentir-se parte de alguma manada.

Abaixo, eu conto uma história. Não é uma história de glórias – pelo contrário. Mas é a MINHA história.

Todo dia, a luta continua.


Eleições de 1988

Eu tinha uma tia chamada Suzana, que era assessora do deputado Mendes Ribeiro Filho. Então, eu frequentava gabinete e diretório de partido desde cedo.

Um dia, ela me levou para um passeio meio esquisito. Lembro disso como um filme: eu estava dentro do carro dela, olhando para fora. Uma multidão empunhando bandeiras e placas. Um barulho infernal.

Um carro de som, com o volume no máximo, tocava o jingle:

“Britto, Britto e Mercedes…”

Eu tinha 6 ou 7 anos de idade. Aquela era a segunda eleição para prefeito da capital gaúcha, logo depois do fim do regime militar e da redemocratização do país. E foi tudo muito lindo.

Perdemos – Britto tirou o quarto lugar – mas eu ganhei algo de imenso valor: uma memória que nunca mais esqueci, ao lado dessa minha tia que foi uma das pessoas que eu mais amei até hoje.

Foi ali que me apaixonei por campanhas eleitorais. Antes de entender qualquer coisa sobre ideologias, sobre cargos ou sobre administração pública, eu estava hipnotizado por aquela mistura de multidão, jingles, bandeiras e da sensação de estar participando de momentos nos quais é escrita a História.


O Forrest Gump de 1992

Eu tinha 11 anos e estava andando na rua. Uma pequena multidão passava na rua Laurindo, próxima ao colégio Julinho, em Porto Alegre. Acabei acompanhando aquele estranho carnaval por algumas quadras.

Eu não compreendia muito bem o que era aquilo, mas achei lindo… eu estava muito feliz.

E assim, como um Forrest Gump porto-alegrense, sem nem entender direito, eu acabara de participar de um momento profundamente histórico. Eu havia engrossado, sem saber, as fileiras do “Fora Collor”.


Queda de braço com FHC

Em 1999, uma mudança na Lei de Diretrizes de Bases da Educação acabou com a possibilidade de os alunos cursarem o ensino médio concomitante ao curso técnico na Escola Técnica da UFRGS, da qual eu era aluno.

O governo do presidente Fernando Henrique Cardoso queria extinguir imediatamente as turmas do ensino técnico, redirecionando os estudantes para escolas de ensino médio comuns.

Nós, que havíamos ingressado na instituição através de uma concorrida prova de seleção, considerávamos que a manutenção dos cursos em andamento era nosso direito adquirido.

Então, fomos às ruas. Trancamos a Avenida Ipiranga algumas vezes, enfrentamos a Brigada Militar. Em resumo, cumprimos todo o “roteiro” de um protesto estudantil típico.

E no fim, valeu a pena. Conseguimos concluir o Ensino Médio lá mesmo.


AS ELEIÇÕES MUNICIPAIS DE 2000
No começo de 2000, o PSTU organizou uma festa punk perto da minha casa. Eu fui ao evento pela zoeira e pelas gurias, mas acabei fisgado pelo discurso dos caras. Entrei para o partido e fiquei nele por alguns meses. Nunca cheguei a me tornar um grande trotskista mas, sendo um adolescente metido a rebelde, eu adorava aquele clima geral de “vamos botar tudo abaixo” que só o PSTU tinha.

Coração de estudante

Em 2000, comecei a cursar a faculdade de Jornalismo na PUC, em Porto Alegre. Cheguei justamente em uma época de grande radicalização na universidade. O Diretório Central dos Estudantes estava nas mãos de um mesmo grupo desde 1990, e as eleições eram shows de falta de transparência. Havia uma galera muito revoltada com isso.

A oposição era heterogênea. Tínhamos o Movimento Plural, centrista, ligado ao PMDB, ao PSDB e a outros partidos do tipo; havia minha pequena turma, ligada ao PSTU; a juventude do PCdoB tinha uma certa presença e era liderada pela Manuela D’Ávila, que àquela altura ainda não era famosa, mas já se destacava.

Esse coletivo publicou algumas edições de um “jornal” criado por nós, alunos da Faculdade de Comunicação. Era reproduzido à base de Xerox. Típico panfleto juvenil, rotulava os adversários de “fascistas” e coisas do tipo.

Nas eleições seguintes, montamos barracas e passamos noites em vigília no Campus, tentando evitar o “sumiço” de urnas. Tivemos enfrentamentos com a polícia e com a segurança da PUC. Foi intenso. A apuração foi conturbada e, no fim, não ganhamos. A luta iniciada na nossa geração seguiria até a década seguinte.

Mas para não dizerem que eu não falei de flores, eu tive algumas alegrias nisso tudo. Primeiro, porque apareci em uma matéria do jornal O Sul, e depois porque, com o tempo, a oposição foi ganhando eleições em vários Diretórios Acadêmicos, incluindo o do prédio 7 (das faculdades de Comunicação), um pouco antes de eu me formar em 2005.

AS ELEIÇÕES MUNICIPAIS DE 2004
Neste ano, eu não tinha pretensões reais de concorrer a nada. Morava em Porto Alegre, e lancei na internet uma campanha (fake, é claro) para prefeito da capital gaúcha.


A imprensa como arma

Eu era um jornalista com sonhos de grandeza e, portanto, pretendia usar a imprensa como meio para projetar minha voz. Na época da formatura, em 2005, eu já havia fundado meu próprio jornal na cidade de Viamão.

Esse jornal faliu depois de um ano, mas me projetou como uma figura relevante (uma “subcelebridade local”, como diria o “viamólogo” Eduardo Escobar).

Nele, eu fazia muito conteúdo do tipo “buraco de rua”, pressionando o governo por melhorias. Dava voz a vários movimentos na cidade. Procurava ajudar iniciativas positivas. Eu levava muito a sério meu papel de “homem de imprensa” embora fosse, na verdade, pouco mais que um guri.

Na foto acima, uma homenagem que recebi da Federação Gaúcha de Taekwondo pelo trabalho de divulgação da equipe local, quando ela ainda não contava com o prestígio que tem hoje.

A falência do meu jornal me deixou atolado em dívidas e coincidiu com o nascimento da minha primeira filha, a Camila. Eu estava desempregado, precisava me preocupar com questões básicas de sobrevivência, e iniciava o período mais difícil da minha vida.

Fui atrás de empregos “normais” mas, para não desaparecer da arena pública, escrevia colunas para diversos pequenos jornais da região e participava de programas em rádios comunitárias.

Entre 2007 e 2011, meu principal “megafone” foi um blog que, na época, ficava no topo da página de pesquisas do Google pela palavra “Viamão”. Com ele, fiz parte da primeira onda de comunicadores da internet em Viamão.

Este circuito de rádios, jornais e sites às vezes efêmeros durou uma década e meia. Comprei brigas diversas. Fui, muitas vezes, o único jornalista na cidade a dar espaço a figuras públicas vitimadas por “linchamentos de reputação”, que já estavam se tornando comuns na época.

A maior parte dos meus esforços nessa época foram lutas inglórias, mas colecionei algumas vitórias aqui e ali.

A imagem acima é de 2005, mas essa briga durou alguns anos. A construção da “escola da bica” foi finalizada tempos depois. Hoje chama-se Escola Estadual de Ensino Médio Santa Isabel.

Política partidária

Eu fazia barulho – fosse em páginas impressas, na internet ou no rádio. E portanto, surgiam convites e o interesse dos partidos. Eu via, na política, um meio para defender minhas ideias e, quem sabe, fazer uma carreira.

Ali pelo final de 2005, eu estava filiado ao PDT. Foi nele que tive minhas primeiras experiências em assessoria de imprensa, a princípio voluntariamente e depois, por alguns meses, no gabinete do vereador Romer Guex, no qual fiz um estágio.

Foi assim, por exemplo, que o PDT-Viamão tornou-se o primeiro diretório de partido político da cidade a ter um site na internet.

Uma das coisas que fiz nessa época foi participar da última campanha eleitoral do ex-governador Alceu Collares, quando ele tentava voltar ao Palácio Piratini em 2006. Digam o que quiserem, mas eu gosto do Collares.

Depois, houve uma grande briga dentro da sigla e cada um saiu correndo para um lado. Mas continuei fã do Brizola.

Em 2008, por um curto período, fui vice-presidente do PTdoB, (hoje Avante) em Viamão. Era um legítimo “partido de aluguel” criado às vésperas da eleição, para ajudar o PMDB.

Eu passei a agir como presidente de facto depois que o titular teve alguns atritos com a cúpula emedebista. Eu tinha a ajuda do secretário da sigla, meu amigo Gabriel Cavalcante, nesse complô.

Na foto acima, eu estou no canto esquerdo, e o Gabriel no canto direito. Nós éramos a “tropa de choque” da famosa “turma do Sarico” dentro do PTdoB.

Já fui muito criticado por ter assumido esse “serviço sujo” de tocar uma sigla-reboque para engordar chapa eleitoral, mas eu não sinto vergonha alguma do que fiz.

Não ganhei um centavo para estar ali, por incrível que pareça.

Esse foi meu primeiro grande aprendizado sobre as engrenagens da política (aproveitado, depois, no livro “Política para Iniciantes“). Conheci pessoas interessantes e fiz grandes amigos nessa época. E me diverti bastante também!

AS ELEIÇÕES MUNICIPAIS DE 2008
Eu via algumas das lideranças do meu tempo de faculdade despontando na política e pensei em lançar-me também, concorrendo a vereador da cidade de Viamão. Mas eu havia recém começado a trabalhar na CEEE, depois de um disputado concurso. Para concorrer nas eleições eu teria que me licenciar, o que não seria possível durante o período de experiência. Então, esfriei a cabeça e resolvi esperar mais quatro anos.

Depois da dissolução da “Executiva de ocasião” do PTdoB no início de 2009, eu fui “incorporado” para dentro do PMDB. Em 2011, fiz parte da Executiva Municipal da Juventude do partido, ao lado de uma turma que eu amo até hoje.


Na foto acima, estou com o então ex-vereador Valdir Elias, o Russinho. Em 2008, ele já havia concorrido na majoritária e perdido, estava sem mandato há alguns anos e tentava voltar à política. Fiz campanha para ele. Russinho se elegeu naquele ano. Em 2016, ele chegaria a vice-prefeito. Em 2020, com o afastamento do titular, ele assumiu a cadeira. Infelizmente, morreu semanas depois, ainda em exercício, vitimado pela Covid-19.

Nesta outra foto, à minha direita está o Geraldinho Filho, meu amigo a quem apoiei algumas vezes. Ele foi o primeiro (e até hoje único) político de Viamão a chegar ao Congresso Nacional, quando assumiu por alguns meses uma cadeira de Deputado Federal. À minha esquerda, está o deputado e candidato a vice-presidente Beto Albuquerque. A imagem é de um evento na Assembleia Legislativa do RS.

2012: um ano de triunfo e confusão

Em 2010, comecei a fazer um novo jornal impresso ao lado dos meus amigos Vilson Arruda, Hélio Ortiz e Daniel Jaeger Marques (que era o idealizador do projeto). Chamava-se Jornal Sexta, e foi um dos veículos de comunicação mais relevantes dos últimos 30 anos em Viamão. Em 2012, o semanário estava no auge, com tiragens cada vez maiores e ampla distribuição.

Nesta foto, o quarteto do Jornal Sexta, almoçando e confabulando a derrubada de alguma potestade viamonense.

No campo da política, a coisa era mais confusa. Eu havia entrado para o PSOL, para me juntar à minha velha turma lá do PDT que havia ingressado na sigla. Mas eu era um “estranho no ninho” e nunca me acertei dentro do partido.

Por outro lado, minha principal tribuna de luta, o já citado Jornal Sexta, ia muito bem. E teve um papel muito relevante no resultado das eleições municipais de 2012.

Este foi provavelmente meu ponto mais alto em termos de influência através do jornalismo – uma “era dourada” que duraria até 2014, ao final da qual iniciou-se o ocaso do jornal, do meu blog, de tudo.

AS ELEIÇÕES MUNICIPAIS DE 2012
Eu dedicava muito tempo à imprensa (concomitante ao meu trabalho regular na CEEE), mas pensava em me candidatar porque estava com minha imagem em evidência na cidade. Parecia uma boa chance. Infelizmente, minha esposa estava com sérios problemas de saúde após o nascimento do Gabriel, nosso segundo filho, e nós estávamos passando por fortes dificuldades financeiras, o que me obrigou a adiar os planos para dali a 4 anos.


#VemPraRua: 2013

Ah, 2013… o Brasil inteiro levantou-se, cansado da corrupção e do descaso da classe política.

Eu participei das duas grandes passeatas ocorridas na cidade de Viamão – e na segunda delas, eu estava na linha de frente.

Tínhamos pautas diversas: saúde, transporte, etc.

Aquele foi o primeiro grande movimento de massas organizado pelas redes sociais e eu, de alguma forma, já tinha noção de ser aquele um momento relevante da História do Brasil.

Olhando em retrospecto, talvez tenhamos dado vida a um “monstro” que viria a nos engolir depois. Mas na época, a gente sentia que não dava para ficar quieto.


A grande greve da CEEE

Em 2014, me envolvi na deflagração e, depois, na coordenação da grande greve dos eletricitários que paralisou toda a área de concessão da CEEE Distribuição durante o governo Tarso Genro.

Foi a primeira vez, em duas décadas, que a categoria fez algo dessa magnitude. Essa greve acabou criando uma cultura de mobilização dentro da classe eletricitária, que perdura até hoje, por exemplo, no movimento contra a privatização da CEEE.

A greve teve também uma importância muito grande para mim, no meu processo de amadurecimento. Aquela foi a primeira vez na vida em que me vi como figura relevante em alguma coisa, capaz de tomar ou influenciar decisões de um grande grupo.

Foi, em resumo, minha primeira experiência de liderança.

Eu tenho orgulho das posições que defendi – a principal delas foi vetar a participação de políticos e a partidarização da luta.

Eu não queria que a nossa greve se transformasse em algo parecido com as mobilizações do CPERS, que se perdem em discursos confusos e complexos demais. “Nossa bandeira não tem cor. Nossa ideologia é apenas uma: queremos reajuste salarial e um plano de carreira decente!” – esse era meu slogan, repetido todos os dias em todo lugar que eu ia.

E no fim, esta foi uma decisão acertada. Porque os eletricitários são politicamente heterogêneos, uns de direita e outros de esquerda. A neutralidade neste sentido impediu que as querelas ideológicas rachassem a categoria e esvaziassem o movimento.

Outra memória marcante da paralisação foi a intensa agenda de reuniões com políticos que tentavam mediar uma solução entre nós e o governo.

Foi quando adquiri verdadeiro gosto pela negociação e pela diplomacia. E isso foi, para mim, uma espécie de rito de passagem para a maturidade.

Logo depois da greve, tivemos as eleições do Sindicato dos Eletricitários do Rio Grande do Sul, o valoroso Senergisul.

Na foto acima, a Chapa 2 das eleições para o Senergisul em 2014. Nós perdemos esta eleição, mas foi a primeira vez, em uma década, que a direção do sindicato teve que enfrentar alguma oposição. Depois, eu acabei ficando amigo de todo mundo – até dos nossos adversários. Ainda lembro do pessoal deles vindo se despedir de mim, quando saí da CEEE em 2015.

Repensando a estratégia

Em 2014, eu havia vivido meu momento mais revolucionário mas ele não me impulsionou a uma projeção política significativa. Eu era conhecido na cidade de Viamão e entre minha categoria, mas não tinha cargo algum e fui sumindo no meio da multidão.

No ano de 2015, fui trabalhar na Receita Federal, me desligando do Senergisul e das lutas da minha antiga categoria. Além disso, minha “aventura” na extrema-esquerda já havia desandado há tempos, meu blog estava morto e o Jornal Sexta apresentava claros sinais de declínio (ele iria deixar de circular em 2019). Era hora de partir para o “tudo ou nada”.

AS ELEIÇÕES MUNICIPAIS DE 2016
Quando a greve de 2014 acabou, eu estava estourando. Recebi convites de sete ou oito partidos para concorrer em 2016. Aquele parecia ser o meu momento. Mas, após minha admissão na Receita Federal em fevereiro de 2015 eu teria pela frente três anos de estágio probatório, o que me levou a pular fora da corrida ainda no começo da pré-campanha.

Nos anos seguintes, vivi diante de um grande impasse. Eu ia sumindo da vida da cidade. Me sentia esquecido, irrelevante. Isso me deprimia muito. Por outro lado, tinha nas mãos a possibilidade de uma carreira de verdade em uma instituição “top”.

Depois de passar duas décadas envolvido com política sem ir a lugar algum, me vi diante de uma nova chance de achar um lugar ao sol. Vislumbrava um novo caminho para a relevância, o prestígio e a notoriedade. Então, canalizei minha energia toda nessa nova direção.

AS ELEIÇÕES MUNICIPAIS DE 2020
No final de 2019, até juntei alguns apoiadores na zona rural e no centro de Viamão mas, àquela altura, meu momento havia passado. Mantinha a resolução de concorrer por pura teimosia. Não é do meu feitio desistir das coisas.
Só que, no inverno de 2020, fui selecionado para comandar a Receita Federal em Caçapava do Sul. Como não sou besta, larguei a disputa eleitoral e fui cuidar da minha vida.