Jornais e canais de notícias internos são realmente inúteis?

Às vezes, algumas coisas parecem completamente sem importância dentro de uma organização, simplesmente porque ninguém entende o quão úteis elas são, e para que elas realmente servem.


Em 2018, o antropólogo David Graeber chocou o mundo ao lançar Bullshit Jobs: A Theory” – o que é um “bullshit job”? No popular, é um “emprego de merda”.

E o que é um “emprego de merda”?

É um trabalho sem relevância real para os processos produtivos. Empregos de Merda existem, segundo Graeber, porque nossa sociedade nos educa a pensar que não existe dignidade sem trabalho. E como não existe trabalho real para todo mundo, cria-se funções que são, na verdade, inúteis. Daí a proliferação de atividades-meio e cargos de gerência intermediária.

Dentre os tipos de trabalho considerados “supérfluos” pelo pensador, está a produção de notícias para o público interno. Em uma entrevista, o autor disse o seguinte:

Na mídia, ha um exemplo interessante: revistas e jornais internos, para grandes corporações. Há bastante gente envolvida na produção deste material, que existe principalmente para que os executivos sintam-se bem a respeito de si próprios. Ninguém mais lê estas publicações.

Graeber tem razão?

A resposta é: NÃO.

Mas é preciso entender o porque.

 

 

Por que jornais internos parecem inúteis

E por “jornais”, não estou falando especificamente de materiais impressos. Falo de sites e outros meios também.

Jornais internos levam notícias para um público restrito. Quem assumiu qual setor, quais as novidades do mercado, os resultados da empresa. Gestores de alto nível escrevem textos variados nesses jornais, para fazerem-se conhecer aos colaboradores. E há, sim, muito conteúdo publicado apenas para atender a vaidades.

O caso é que, com a internet, tornou-se possível “pular” este veículo intermediário de comunicação.

O pessoal do RH não precisa mais de um jornal para informar aos empregados sobre as mudanças que vão afetas as vidas deles. Basta mandar um e-mail para todo mundo!

Os chefões não precisam mais dos jornais internos para serem vistos pelas pessoas. Eles têm redes sociais para isso.

Mas há um problema que advém desta nova realidade.

O grande problema da informação descentralizada é, justamente, o fato de ela ser descentralizada.

 

O monopólio da verdade

Na União Soviética havia uma piadinha que era mais ou menos assim:

Um sujeito pergunta ao amigo: “Ei, Ivan, você viu o novo filme que acaba de sair?”

Ivan, um zeloso membro do Partido Comunista, responde: “Sim.”

“E então, o que achou dele?”

“Ainda não sei. Eu ainda não li a edição de hoje do Pravda.”

 

O Pravda era o jornal oficial da União Soviética. Nele, o governo exprimia a versão oficial dos fatos, já devidamente censurada e formatada para sustentar a visão oficial de mundo da URSS.  Críticos de cinema, colunistas de opinião e outros formadores de opinião alinhados com a ideologia do governo davam a interpretação “correta” de tudo.

Não por acaso, o nome do jornal, Pravda, significa “verdade” em russo. O que estava impresso nele, era a verdade aceita pelo governo soviético. Todo o resto era, por força de lei, fake news.

O Pravda detinha, em resumo, o monopólio da verdade.

E as organizações precisam ter seus próprios Pravdas internos.

 

Anatoli Skurikhin
[Peasants reading Pravda, 1930’s]

 

Por que monopolizar a verdade

Em primeiro lugar, porque a emissão descentralizada de informações leva, inevitavelmente, a confusões.

O pessoal do RH mudou alguma coisa, e mandou e-mails para todo mundo. Depois, reverteu a mudança e mandou novamente. Algumas pessoas leram o primeiro e não leram o segundo. Confusão.

Um membro da gestão publicou, por conta própria, um texto em uma rede social. Outro gestor do mesmo nível escreveu outra coisa, discordando. Qual será a visão da empresa? Cada empregado escolhe a sua favorita. Mais confusão.

É preciso haver um veículo de comunicação interna que publique a versão da empresa sobre as coisas.

As pessoas precisam de um endereço de intranet, ou uma caixa corporativa de e-mail, ou alguma fonte qualquer de informações que seja “quente”, válida, oficial. Uma fonte que publique aquilo que será aceito como verdade no ambiente corporativo.

E isso não é supérfluo.