Por quê as redações deixaram de ser atrativas para muitos jornalistas

“Redação, não” – Ouvi a frase de um cara que trabalha comigo. Ele, estudante de Jornalismo. Eu, formado há quinze anos. No meu tempo de estudante, a frase simplesmente não fazia sentido algum. Hoje, está na boca de boa parte da meninada.

Quando eu estava na faculdade, assessoria era vista como “jornalismo bunda-mole”, uma coisa chata que se fazia quando não havia opção. As redações de jornal eram o sonho da vida de todo mundo.

Mas quer saber? Eu entendo as apreensões da meninada em relação ao trabalho que é a essência principal do jornalismo.

 

Minha teoria:

Cada jornal do século XX, tinha, por exemplo, um cara que sabia tudo de carros. As montadoras mandavam convites para que ele visse seus últimos lançamentos e escrevesse sobre eles. Da mesma forma, os jornais tinham montes de outros “caras setoriais” para falar não só de carros mas de moda, política, e tudo o mais. E haviam exércitos de repórteres generalistas que iam atrás de matérias para tudo quanto é lado.

Eu lembro da redação do Correio do Povo, que parecia um formigueiro, com gente andando para todo lado e trabalhando em todo tipo de histórias incríveis.

Resumindo, os empregos estavam nas redações e o trabalho divertido estava nelas. Era lá que tudo acontecia. As equipes eram grandes, financiadas por um mercado de publicidade que dependia dos jornais e emissoras de rádio para divulgar seus produtos.

E aí, entre os anos 90 e o começo do século XXI, tudo mudou.

Subitamente, as redações tornaram-se um lugar inóspito e tudo na profissão ficou confuso.

(engraçado… eu lembro de ter lido, na Famecos, um livro cujo título ilustra muito bem o momento: “Jornalismo, a saga dos cães perdidos”)

Mas que mudança foi essa?

Primeiro, as assessorias de imprensa, que só existiam em empresas top, hoje estão por tudo. Firmas pequenas e medianas as têm, prefeituras do interior, etc. Então, os empregos nelas hoje existem em quantidade muito maior do que antigamente.

A oferta de conteúdo vindo destas tais assessorias é tão grande que tornou-se possível produzir um jornal (ou um site de notícias) sem tirar a bunda da cadeira. É só ficar de olho, selecionando e repicando o que aparecer na caixa de e-mails.

As redações, por sua vez, estão vazias.

Primeiro porque, com tanto conteúdo disponível, grandes equipes já não são necessárias.

Segundo, porque não há grana. Em tempos de internet, a verba da publicidade está pulverizada e ninguém mais é obrigado a grudar sua propaganda em um veículo noticioso. O sujeito pode, por exemplo, criar uma peça e pagar para impulsioná-la nas redes sociais.

 

Então, noves-fora…

A meninada está diante de uma realidade na qual a antes mítica Redação tornou-se um espaço precarizado, de contratos instáveis. E os poucos empregos que existem nelas resumem-se, em sua maioria, à chatíssima função de repicador de release.

Existem, claro, os românticos que sonham com uma vida de busca da verdade, dos fatos, do furo. Existem aos montes, especialmente nos primeiros semestres do curso. Muitos mudarão de ideia ao primeiro contato com a dura realidade.

Não me admira que tanta gente hoje faça uma escolha voluntária pelo ambiente pouco glamouroso, mas seguro e confortável das assessorias.