“Meu nome é Ozymandias, Rei dos Reis…”

Meu nome é Ozymandias, Rei dos Reis. Observem minhas obras, ó poderosos, e desesperem-se.

A frase acima pertence a um soneto escrito por Percy Shelley há exatos dois séculos, inspirado em uma estátua egípcia recém-chegada ao Museu Britânico. Ela havia sido descoberta pouco antes, em 1816, e retratava o faraó Ramsées II – chamado de Ozymandias pelos gregos da antiguidade.

O poeta britânico nos dá, em poucas linhas, a descrição gráfica, quase palpável, de uma cena que faz com que a alma seja invadida por uma espécie de silêncio. É impossível não cair em um estado de certa contemplação, uma espécie de “despertar” a respeito das ilusões do homem, e da impermanência do poder e da grandeza.

Existem muitas traduções de “Ozymandias” na internet. Minha adaptação, diretamente do original, teve como prioridades o vocabulário simples e a conservação da força das frases.

Leia, tentando imaginar tudo visualmente:


Conheci um viajante de uma terra antiga

que me disse: Duas pernas de pedra, enormes e sem corpo

acham-se no deserto. Perto delas, na areia,

jaz meio soterrado um rosto rachado, cujos lábios franzidos

em uma expressão de desdém, e o olhar frio e imperioso

demonstram que seu escultor bem soube ler essas paixões,

que ainda sobrevivem nos fragmentos sem vida

da mão que deles zombava e do coração que os alimentava.

E no pedestal, notam-se essas palavras:

Meu nome é Ozymandias, Rei dos Reis

Observem minhas obras, ó poderosos, e desesperem-se!”

Nada mais existe por ali. Ao redor da decadência

destas ruínas colossais, as intermináveis e nuas areias,

planas e abandonadas, estendem-se à distância.


Lindo!

Pergunto: onde está tudo? Onde estão as coisas que faziam o faraó especial? Onde estão os tesouros em cuja defesa seus homens leais morreram, e pelos quais conspiradores dispunham-se a matar? Onde está toda aquela majestade retratada pelo escultor? Não há mais nada: só ruínas engolidas pela areia.

Que mensagem! Que mensagem para nós!

Nós, no século XXI, também tendemos a acreditar que vale a pena renunciar à felicidade, à paz, às amizades, ao amor – e morrer, até matar – para construir nossas pirâmides, depositando nelas o sentido de nossas vidas.

Como se elas fossem capazes de nos tornar plenos, eternos.

Que importância elas têm no Universo?

“Ozymandias” tem esse poder: quem o absorve passa a ser assombrado por ele. E quando começa a achar-se “grande coisa”, escuta a voz do próprio espírito a recitar aquelas últimas cinco linhas…

Meu nome é Ozymandias, Rei dos Reis…