O menino do quarto ao lado

Eu tinha dois anos de idade quando quebrei a perna, quase perdi um pé e tive que reaprender a andar, e sou eternamente grato por isso.

O acidente em si foi uma bobagem. Eu era um moleque grandalhão e gorducho. Tentei usar um caminhãozinho como skate, caí e parti o fêmur esquerdo ao meio.

A imobilização, malfeita, cortou a circulação de sangue para o meu pé, fazendo-o apodrecer. Uma amputação parecia inevitável.

Assim, fiquei um longo tempo internado no Hospital Cristo Redentor.

Em outro quarto havia um menino gravemente queimado. Mamãe nunca conseguiu esquecer sua triste figura: “o rosto era totalmente deformado e as mãos eram apenas toquinhos de dedos carbonizados” – seu aspecto era monstruoso, repulsivo. Ele passava por cirurgias reconstrutivas o tempo todo. Ninguém, nem mesmo os médicos, aguentava olhar para ele.

Eu, no entanto, não tinha problema algum. Não lembro disso, mas me contam: eu via nele apenas outro menino. E como eu não podia caminhar, era ele quem atravessava o corredor todos os dias para brincar.

Minha falecida tia Suzana me levava sempre alguma coisa nova – um carrinho, um boneco, um jogo – e nós, eu e meu amiguinho semi-carbonizado, ficávamos lá, na maior diversão.

Não sei quantos dias de brincadeiras tivemos, mas não foram poucos.

Até que, por verdadeiro milagre, pude ir para casa com meus dois pés. Eu saíra praticamente ileso – apenas precisando reaprender a andar e com uma das pernas ligeiramente mais curta do que a outra.

Meu camaradinha, no entanto, continuou internado, tendo diante de si uma vida certamente bem mais difícil do que a minha.

Eu até hoje não sei quem ele era. Não sei sequer se sobreviveu.

Minha mãe lembrou-me desta história hoje mesmo. E eu fiquei pensando que, se aquele garoto conseguiu sair do hospital com vida, nossas aventuras podem ter sido, para ele, uma das poucas oportunidades de sentir-se uma criança normal e aceita.

Talvez ele tenha até memórias daquela época. Talvez as guarde com carinho em algum canto do coração.

Por outro lado, pode ser que o pobre menino queimado tenha sucumbido ali mesmo, no hospital. E se isso aconteceu, nossas brincadeiras podem ter sido os últimos momentos felizes de sua curta existência.

Eu sinceramente não sei.

Só sei que meu pequeno acidente foi uma benção, um presente da vida – para aquele garoto, sim, mas principalmente para mim.

Que bom que quebrei aquela perna!

A vida é verdadeiramente bela.