O significado simbólico da cegueira de Saulo

Saulo, o fariseu, percorria o caminho para Damasco quando ouviu a voz do Senhor: “Saulo, Saulo, por que me persegues?” – e caiu por terra. Ao levantar-se, estava cego. Só recobraria a visão dentro da cidade, após abraçar a fé em Cristo e mudar seu próprio nome para Paulo.

A história é bem conhecida e está em Atos 9. Infelizmente, é comum ver cristãos e até pregadores interpretando a cegueira como uma demonstração de força ou uma forma de coação: “Ali, o inimigo da Igreja Primitiva foi castigado, viu o tamanho do poder de Deus e converteu-se”, raciocinam.

É natural que se faça este tipo de interpretação, pois a noção de “castigo” e de “conversão pela dor” faz parte do imaginário cristão básico. A verdade, no entanto, é que esta perda momentânea de visão tem outro significado, bem mais profundo e interessante.

Os seguidores originais de Jesus eram pessoas simples, pescadores semianalfabetos. Saulo, pelo contrário, era um escriba ou talvez até um membro do Sinédrio (Atos 26,10). Sabe-se, com certeza, que era um judeu helenizado detentor de uma sólida formação a respeito das Escrituras.

Tratava-se de um homem culto, cujas ações faziam sentido sob a ótica racional da sociedade daquela época. Em resumo, um homem de visão. Até que, tocado pela voz de Deus, ele cai por terra e percebe-se cego (Atos 9:4-8).

O simbolismo está aqui: Saulo na verdade SEMPRE estivera cego.

Ele então deixa-se conduzir pela estrada indicada por Deus, e seus olhos se abrem. Mas já não são mais os olhos do velho Saulo e sim os de um novo homem, Paulo, o apóstolo.

Mais adiante (em Atos 9:23), temos ainda um último simbolismo importante:

Uma vez que Paulo recebe a capacidade de enxergar verdadeiramente, ele passa a ser visto como um incômodo para a sociedade apegada à própria cegueira – e é impossível não fazer um paralelo entre sua situação e a dos fugitivos da caverna de Platão, hostilizados por seus amigos ainda presos às ilusões nas sombras.