Tipinhos típicos: a madame chique de classe média

Ela não cumprimenta o gari pelo qual acaba de passar, exibindo já em plena avenida seu distinto nariz empinado. Faz questão de descer – onde todos nós possamos presenciar – do carro mais caro que o limite de seu orçamento mensal pôde parcelar. Com indisfarçável satisfação, fala de suas mais recentes compras, ao lado das amigas. E recita, pela enésima vez, a opinião sobre algum restaurante mais ou menos caro no qual teve a honra de botar os pés algumas vezes na vida.

Avalia todas as pessoas – e crê estar sendo avaliada – pelo valor acumulado das roupas que cada um carrega sobre o corpo. Marcas. Tecidos. Grifes.

Entra ou não em uma casa conforme a qualidade do reboco da parede e o material de que é feita a porta. Vai ou não à casa de uma amiga ou parente dependendo do bairro em que esta pessoa mora.

Bate foto em lugares badalados. Esfrega-se como pode a nomes, títulos, lugares, como se o convívio a pudesse contaminar com a riqueza, com o luxo. Faz questão de conversar com gente importante, mesmo não tendo nada a dizer, nem condições de entender o que a pessoa diz.

Para descontrair seus comensais, conta piadas sobre o jeito “tosco” da faxineira que semanalmente vai a sua residência, proibida de comer à mesa com a família e monitorada “no detalhe”. A mesma que serve-lhe de principal suspeita a cada vez que um objeto é perdido pela casa. Aquela, cujo filho tem, às vezes, o supremo privilégio de brincar com o filho da bondosa patroa.

Ela tem certo medo de “misturar-se”. Pobres parecem-lhe sempre suspeitos. Sujos e suspeitos. E perigosos. O contato com eles, em sua vida, é praticamente um safári, como aqueles que os nobres britânicos entediados faziam na África selvagem.

Quem a vê do alto de toda sua pompa a desprezar as praias de Cidreira, Pinhal e outros destinos turísticos “do povão”; quem acompanha suas fotos em viagens internacionais no histórico da rede social; ou percebe o nojinho (nada disfarçado, aliás exibido) que demonstra ao meramente ouvir falar em mortadela, ou cidra, ou “refrigerecos”… ah, quem a vê assim, não vê o que eu vejo.

Apenas eu, que tenho a visão aguçada, sei o que tudo isso significa.

Todos os sinais estão aí: os sinais, um tanto ridículos, como essa ânsia de colocar-se com força no atual status social, de vincular-se desesperadamente a ele e ao outro, imediatamente acima. Essa fobia do contato com qualquer objeto ou símbolo de pertencimento àquele estrato logo abaixo.

Para mim, tudo evidencia o óbvio: ela saiu de alguma vila, de algum pedaço distante, perigoso e insalubre de uma grande cidade. Um lugar onde eu teria medo de colocar os pés à noite! Ou de um canto obscuro da pobreza rural.

Se trabalhou muito, se estudou, se ganhou na loteria, se gravou uma música, se casou bem, se faz o perfil “self-made-man/woman”, “socialite-júnior” ou “inteligentinho”, se subiu limpamente ou jogando sujo, nada disso importa. O deslumbramento da ascensão social sem a correspondente evolução psico-filosófica é inconfundível.

Não que o mero pertencimento nato à classe média livre as pessoas desse tipo de vício – na verdade, o esnobismo megalomaníaco do classemediano nato pode ser ainda mais caricato. Mas é outro fenômeno.

Não tomem, a mim, por algum tipo de pseudo-aristocrata. Sou apenas um sortudo. Não por ter nascido classemédia de várias gerações (pelo menos por parte de mãe), mas porque, crescendo em um bairro com muito mais livrarias e “sebos” do que shoppings, e com uma mãe totalmente “outsider” à cafonice pequeno-burguesa, desenvolvi certa autoconsciência do ridículo da condição dos membros velhos e novos da minha própria classe.

Para mim, a metáfora maior dessa história toda está nos veraneios da minha infância – no apê de vovó, depois no do papai – em uma praia “boa” (na concepção do deslumbrado médio – eu mesmo, acho todas as praias ótimas). Lá, assisti a levas e mais levas anuais de recém-chegados em seus prédios construídos às pressas, sujando tudo, maravilhados com os preços ascendentes e as ruas sobrecarregadas. Uma massa meio monocromática de peles quase todas brancas, carros quase todos prata, roupas quase todas de marca (pra “desfilar” na areia e estragar na água salgada do mar, vejam vocês) – enfim, toda aquela gloriosa cafonice.

Eu sei do que estou falando.

6 thoughts on “Tipinhos típicos: a madame chique de classe média”

  1. Fabio achei seu texto brilhante, eu gostaria de dizer que eu vim sim de infância pobre e fui criada em um bairro chulo da zona norte o qual eu nutro um carinho enorme e hoje mesmo em uma condição melhor nunca ou jamais gostei desse tipo de gente e ao contrário acho que essas peruas deveriam se tratar antes de bancar as palhaças!

    1. Fabio achei seu texto brilhante, eu gostaria de dizer que eu vim sim de infância pobre e fui criada em um bairro chulo da zona norte o qual eu nutro um carinho enorme e hoje mesmo em uma condição melhor nunca ou jamais gostei desse tipo de gente e ao contrário acho que essas peruas deveriam se tratar antes de bancar as palhaças!

      1. Fabio achei seu texto brilhante, eu gostaria de dizer que eu vim sim de infância pobre e fui criada em um bairro chulo da zona norte o qual eu nutro um carinho enorme e hoje mesmo em uma condição melhor nunca ou jamais gostei desse tipo de gente e ao contrário acho que essas peruas deveriam se tratar antes de bancar as palhaças!

        1. Bom dia e obrigado pelo comentário!

          Casos como o teu ocorrem, sim. Tem gente que consegue vencer na vida sem cair no ridículo. Parabéns!

          Tu és um raro caso de crescimento material devidamente acompanhado da evolução psicológica e filosófica. Antigamente isso era o padrão mas, em uma sociedade cada vez mais superficial, torna-se mais raro a cada dia.

    2. Bom dia e obrigado pelo comentário!

      Casos como o teu ocorrem, sim. Tem gente que consegue vencer na vida sem cair no ridículo. Parabéns!

      Tu és um raro caso de crescimento material devidamente acompanhado da evolução psicológica e filosófica. Antigamente isso era o padrão mas, em uma sociedade cada vez mais superficial, torna-se mais raro a cada dia.

  2. Olá Fábio!
    O “deslumbramento” é mesmo um fator bem relevante na formação deste tipo. Como dizem meus pais, nascidos lá na roça:
    “Pulga se vê em cachorro magro”.
    Abraço!

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