Como escapei da Síndrome de Burnout

Antes de iniciar o texto, é importante frisar que não sou psicólogo. Sou apenas um sujeito que trabalha há muitos e muitos anos, sendo vários deles no setor público em funções que nada tiveram a ver com minhas áreas de interesse. Então, busquei empiricamente saídas para essa situação devastadora, e achei maneiras – improvisadas – de sobreviver.

A tal síndrome de burnout, que ataca trabalhadores de todos os níveis, consiste em uma espécie de depressão com relação ao trabalho e, mais amplamente, à própria visão da vida como algo com significado, e às perspectivas que se tem. O sujeito basicamente se sente um rato andando na roda dentro da gaiola, indo rumo a lugar algum.

Existe uma enorme indústria ao redor deste problema. Palestrantes que ganham fortunas prometendo “motivar” os “colaboradores”, autores vendendo rios de livros com frases de efeito.

E existem, claro, as “fórmulas mágicas” do tipo “se seu trabalho não te faz feliz, vá viajar/arriscar/tirar um ano sabático”. São sugestões absolutamente perfeitas, caso você não seja uma pessoa adulta com contas e talvez até filhos. Para os meros mortais, qualquer mudança de carreira tem que ser seriamente pensada e, na maior parte dos casos, não é sequer possível a curto prazo.

Eu sou uma dessas pessoas comuns: entra ás oito, sai final de tarde, dias quase iguais, e temporadas inteiras de trabalho que não tem qualquer significado ou senso de realização que não seja receber o salário no final do mês, e pagar boletos – nem a perspectiva de ficar rico nós, trabalhadores médios, temos pois, no fim das contas, não sobra nada significativo para poupar.

Bom. Como muitos de vocês (imagino), eu mesmo passei pela fase da decepção, da depressão, da lamentação pelas más escolhas na vida (quem nunca?), da inveja em relação a amigos com vidas mais empolgantes. Tudo isso que, tenho certeza, muitos dos leitores aqui também passaram ou estão passando.

Mas como consigo “respirar” e sair do fundo do poço? Explico agora.

 

A MUDANÇA NÃO PRECISA SER PERFEITA

A verdade é que não existe vida perfeita. Enquanto escrevo este texto, acabei de ler a notícia da morte de um surfista de 32 anos. O sujeito viajava o mundo todo, surfava em tudo que é lugar, era ex-campeão de surfe e devia fazer sucesso com a mulherada – uma vida perfeita, sonhada por muitos ratos de escritório como nós – mas esse cara, pasmem, lutava contra a depressão.

Não há mesmo vida perfeita. Mas há uma vida boa para cada momento da cada um. E é preciso vencer a vergonha de admitir que não somos mesmo coerentes ou constantes.

Vou contar uma experiência pessoal: quando minha filha tinha 2 anos de idade, eu era professor e ganhava muito pouco. Vivíamos em um apartamento na cidade e minha filha queria ter uma casa com pátio para brincar. Nós não tínhamos mesmo dinheiro para curtir as atrações da metrópole. Então, fomos morar numa região rural. E fomos felizes por muito tempo! Só que agora, com os filhos maiores e nós em condições um pouco melhores, estamos planejando a volta para a cidade. Eles querem badalação, nós praticidade. E vamos ser felizes novamente em uma nova “nova vida”, que não será perfeita eternamente.

Porque a felicidade é assim: impermanente.

Então, você não vai achar o emprego dos sonhos definitivo. Vai achar aquilo que vai te entreter por um tempo. Aquilo vai empolgar como novidade, vai ter fases boas e ruins, e vai se esgotar. Aceitar essa impermanência é algo essencial.

E a primeira coisa é abrir os olhos e ver que há vida lá fora. Fora do que? Do mundinho em que tu vives, oras.

 

O PODER DA ESPERANÇA

Bom. Eu não penso que seja possível trocar de emprego ou de casa quando se quer. Não vamos viajar na maionese, ok? Se fosse assim, o mundo seria perfeito.

A questão é que não é preciso haver a mudança em si para que se vença a Síndrome de Burnout. Não sei quanto a vocês (e cada um terá que experimentar por si) mas, na minha experiência, a mera PERSPECTIVA de mudança parece aliviar o fardo, parece tirar aquela sensação de beco sem saída.

Você não precisa “torrar” a casa e mudar-se agora: pode ir pesquisando imóveis onde gostaria de morar, enquanto tenta vender o seu. Pode pedir uma transferência de setor ou de cidade, ou de função, e ficar acompanhando o andamento das vagas. Pode ir enviando curriculum ou fazendo concursos. Você precisa estar se mexendo rumo à mudança que deseja. Só isso já vai dando aquela sensação de que o estado atual das coisas não é um ciclo eterno sem fim, não é o girar inútil da roda do hamster.

E é possível até que no final você não mude de emprego ou de casa, nem de namoro. É que a “pegada” se dá mais no campo psicológico.

É diferente estar parado porque se descobriu que ainda é legal estar no mesmo lugar, de estar parado porque se tem medo de mudança. No fim, perceber a desimportância de certas “vacas sagradas” e a inutilidade de certos medos e preconceitos é que nos torna menos infelizes, ficando ou partindo.

A gente tem é que abrir a porta. Se cada um vai sair ou não, é questão de escolha. O que não dá é para continuar vivendo de portas e janelas fechadas, sem notar que há milhares de coisas legais e caminhos possíveis lá fora.

 

NOTA: NÃO PENSE NOS OUTROS

O grande problema de almejar uma mudança é que sempre temos um bando de amigos e parentes que ficam nos lembrando de como a posição ou a moradia atuais são prestigiadas, dotadas de certo status, como o fim de um namoro é doloroso, como as coisas são custosas ou difíceis. E isso nos acovarda.

Eles acabam nos mantendo no conforto da gaiola que construímos para nós mesmos, mesmo que soframos dentro dela.

Então, planeje suas mudanças em silêncio, sem compartilhar com ninguém além da pessoa com quem vive e as crianças, se as tiver. E talvez uma ou outra pessoa mais próxima – um melhor amigo, a mãe, alguém assim.

De resto, não fale nada. Senão, vai sempre haver gente desencorajando ou dizendo que tu estás reclamando de barriga cheia. E aí tu tentas se sentir bem – porque todo mundo diz que, com a vida que tem, deveria estar legal,e aí vem aquela culpa por não se estar numa boa – e aí… a gente se ferra.

Vá na paz, e nunca tenha medo de pelo menos sonhar.

 

VAMOS TROCAR UMA IDEIA?

Sendo este um texto baseado em empirismo, claro que espero as experiências e contribuições de vocês nos comentários.

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